Na estrada com vinhos de Portugal – Costa Vicentina

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog.

Parte 1 – O caminho de Lisboa a Algarve pelo Parque Nacional do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, que vai desde Setúbal até as praias do sul de Portugal.

Alugamos um carro em Lisboa e em seguida fizemos uma parada estratégica em Comporta, uma simpática praia com brisa, grande extensão de areia e água azul ao lado de Setúbal. Infelizmente não tive tempo de conhecer a cidade, que dizem ser uma graça.

A bela praia de Comporta

No caminho ao sul, uma única e incansável vista: dezenas e mais dezenas de sobreiros descortiçados, que não deixam dúvidas de que estamos entrando no mágico Alentejo.

Deixamos para decidir na estrada o lugar em que pernoitaríamos. Ao passar por uma linda colina rodeada de casinhas brancas, decidimos parar em Odeceixe, uma pequena vila com 900 habitantes, onde um rio que desagua no Atlântico marca a fronteira entre o Alentejo e o Algarve.

Odeceixe pedia simplicidade; essa era a vista do hotel que encontramos logo à entrada da aldeia.
Detalhes arquitetônicos
Uma vila onde o tempo se move lentamente

Havia apenas um desejo ao jantar: vinho local e frutos do mar, é claro. Foi aí que conheci a Vicentino – Vinhas da Costa Atlântica, da Frupor, cujo propietário é o noruguês Ole Martin Siem, com uvas que provém de Zambujeira do Mar e seu clima moderado pelos ventos do oceano e solos franco-arenosos e argilo-xistosos.

Vicentino

Elegi o Blend Branco 2017, composto por Semillón, Arinto e Alvarinho, cítrico e delicado, com um final refrescante e quase salino que adoro. Para acompanhar, uma boa porção de amêijoas e depois uma de sardinhas também.

Impossível resistir a uma porção de sardinhas

Às 23h o restaurante estava fechando, então caminhamos um pouco pela aldeia para tomar algum digestivo e comer uma sobremesa. Foi na pizzaria da praça que pedimos uma deliciosa torta algarvia, de laranja e amêndoas, com vinho do Porto e Moscatel de Setúbal da casa (e é claro que foi o último que harmonizou adequadamente).

Ao amanhecer, uma parada essencial antes de descer rumo ao sul do Algarve: o encontro da ribeira de Odeceixe com o Oceano Atlântico, vista inesquecível para coroar essa parada tão aconchegante na Costa Vicentina.

À direita, o rio Odeceixe.
E à esquerda, as falésias emoldurando a praia banhada pelo Oceano Atlântico.

Assim, felizes e com a paz de ver o mar após descansar na pequena aldeia de Odeceixe, fomos descendo rumo à Carvoeiro – mais no próximo post.

Adega Portela

Somos Flávia e Samara Portela, mãe e filha, brasileiras com nacionalidade portuguesa – ora pois. Nossa família é da região do Douro, de onde saem vinhos encorpados, de personalidade e é a única região onde se pode fabricar o famoso Vinho do Porto. Esse espaço é para falar de vinhos – suas lendas, seus paladares, sua história, sua degustação. Portanto, vamos começar contando um pouco dessa história, antes de entrar nos vinhos propriamente ditos.
No século 17, os britânicos começaram a importar grandes quantidades de vinho português. Para que a bebida resistisse às longas viagens marítimas, os comerciantes ingleses acrescentavam aguardente (vínica) nos barris. Os marinheiros logo perceberam que, além de conservar o vinho por mais tempo, a adição de álcool também realçava o sabor da bebida e aumentava o seu poder de embriaguez, tornando-a mais licorosa! Acabaram criando, sem querer, a fórmula do vinho do Porto.

 

O Douro, em Portugal, foi a primeira região demarcada do mundo, pelo primeiro-ministro de Portugal, o Marquês de Pombal, em 1756. Esta região vai ao longo do Rio Douro e seus afluentes, desde Barqueiros (Mesão Frio*) até Barca D’Alva, numa área de 250.000 ha.

* por coincidência ou não, Mesão Frio é a cidade de nossa família.

No século XIX, o escocês Barão de Forrester foi o primeiro a desenhar os mapas desta região do vinho do Porto, estudando a sua viticultura exaustivamente, inclusive com registro de fotografias. Diz a lenda que em 1861, conduzia o seu barco rabelo* pelo Cachão da Valeira e este virou! Forrester foi arrastado para o fundo do rio por causa do peso das moedas que levava consigo. O seu corpo nunca foi encontrado. Nessa derradeira viagem, estava com sua amante, a “Ferreirinha”, que segundo reza a história, não se afogou porque as saias de balão que então vestia, a fizeram flutuar até à margem do Rio Douro.

Rabelo

* O barco rabelo é uma embarcação portuguesa, típica do Rio Douro que tradicionalmente transportava as pipas de Vinho do Porto do Alto Douro