Sobre vinhos e dinossauros

Esta é a entrada da primeira bodega que visitamos na Patagônia, a Familia Schroeder, em San Patricio del Chañar, província de Neuquén:

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“O que tem a ver vinhos com dinossauros?”, todos pensaram. Bom, acontece que durante as obras para construir a bodega, operários se depararam com fósseis de um titanossauro gigantesco que há milhões de anos vivia nestas terras. Por isso uma réplica nos recebe na entrada, e também os nomes das linhas Saurus e Saurus Select. Eu amo estas curiosidades, por trás de um vinho sempre tem alguma boa história para se contar.

Pois bem, o interior da bodega também surpreende, já que seus cinco módulos – recepção, prensado, fermentação, conservação, guarda – estão organizados em sistema gravitacional com altura de 22m. O primeiro módulo começa no andar de cima e depois o mosto vai “caindo” até chegar à cava, de modo que a queda livre evita o contato do vinho com o oxigênio, garantindo melhor qualidade enológica no produto final. Vamos às fotos:

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O interior da bodega
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O enólogo Mariano nos serve direto do tanque o premiado Saurus Select Malbec 2014.
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A bodega tem 600 barricas, 60% francesas e 40% americanas.

Sobre os vinhos: degustamos o Saurus Chardonnay, Saurus Select Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Malbec, Merlot, Cabernet Sauvignon, Saurus Barrel Fermented Malbec, Família Schroeder Blend de Pinot Noir e Malbec, e os espumantes Rosa de los Vientos e Deseado.

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Na sala de degustação

Os brancos, jovens, me interessaram muito. O Chardonnay, com os típicos aromas frutados, apresentou untuosidade em boca que contrastava com sua acidez crispy, aquela que no ataque gera a sensação de leves cosquinhas de gás carbônico. O Sauvignon Blanc se mostrou igualmente elegante, com sutis camadas aromáticas, fruto de duas diferentes colheitas, portanto dois diferentes graus de madurez. O Mariano nos explicou que quando possível, fazem três colheitas desta casta: a primeira traz os aromas a ervas como a arruda. A segunda, notas cítricas de maracujá, pomelo rosado. Já a terceira, que nem sempre o clima permite, como foi o caso deste ano, aporta notas aromáticas mais tropicais.

É claro que o Pinot Noir não poderia faltar, já que é a grande estrela patagônica ao adaptarse perfeitamente às condições geográficas da região. Esta uva é a que mais se exporta e está presente em diferentes estilos e etiquetas da bodega. Também se faz presente o Malbec, sempre ele (risos), que ao lado do Pinot são as únicas castas da exclusiva linha Barrel Fermented, que como o nome diz, se faz uma rápida maceração carbônica para em seguida fermentar o mosto em barris de madeira e depois guardá-lo por 8 meses. O resultado é um vinho leve, refrescante, frutado e suculento. Eu trouxe para casa um de cada. Cada vez prefiro vinhos assim, delicados, de boa acidez, que não precisam ser acompanhados por uma refeição. E falando em comida, a nossa visita não terminou na sala de degustação:

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Impressionante vista para os vinhedos no restaurante da bodega

Tivemos um almoço no maravilhoso restaurante Saurus, que elabora pratos de cozinha de autor adaptada aos ingredientes regionais e estacionais.

Para a entrada, truta marinada e defumada com mousse de queijo de cabra, cítricos e terra de olivas acompanhando o Chardonnay.

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Para o prato principal, cordeiro, purê de batatas, amêndoas e cebola, com cogumelos e pêra. No meu caso, que não como carne, um risotto de cogumelos colhidos no mesmo dia com azeite trufado, folhas frescas da horta e flores comestíveis. Para maridar com o clássico Saurus Malbec.

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E a sobremesa, tão fotogênica, era uma mini degustação de doces elaborados a partir dos vinhos Schroeder: gelatina de Malbec, pêra ao torrontés, sorvete de Deseado e mousse de blend de vinhos tintos. Para tomar com o própio Deseado, o famoso espumante doce da casa.

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Uma delícia!
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FInalizamos a visita com uma caminhada pelos vinhedos

A bodega Schroeder tem ótima estrutura para receber visitas e oferece interessantes atividades como podar uvas de junho a agosto, participar da colheita de janeiro a abril, além do resturante que é aberto ao público e das degustações. Para mais informações, este é o site. Finalmente, deixo meu agradecimiento ao enólogo Mariano Diletti Brovedani e a Florencia que nos receberam com atenção e simpatia.

Desvendando a Patagônia

No fim de outubro fiz uma viagem com a Escola Argentina de Sommeliers para explorar os vinhedos e bodegas da Patagônia argentina. Foram muitos encontros e experiências – tivemos a oportunidade de conhecer e conversar com os enólogos, engenheiros agrônomos e proprietários das bodegas Chacra, Noemia, Schroeder, Fin del Mundo, Malma, Infinitus e Humberto Canale, e claro, de degustar muitos vinhos.

Finalmente posso responder a pergunta: “o que os vinhos da Patagônia têm de tão especial”? Mas antes, preciso confessar: eu já conhecia parte da Patagônia, como Ushuaia, Calafate, Bariloche, e sabia que não haveriam bodegas no meio de glaciares ou pinguins caminhando pelas plantas de Pinot Noir; também sabia que a parte mais setentrional da região é praticamente um deserto infinito (a famosa pampa), mas não concebia exatamente como era a zona de viticultura, então imaginem a minha surpresa ao ver tanto verde, tanta vida, que minha cabeça de quase licenciada em arte rapidamente associou com as paisagens bucólicas de John Constable, com seus incontáveis tons de verde, pincelada rápida, a modo de pequenas manchas, que influenciaria posteriormente os franceses de Barbizon e do Impressionismo. Realmente trata-se de um pequeno oásis que o rio permitiu encher de vida, fauna e flora em seu entorno.

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Bodega Noemía
Fen Lane, East Bergholt ?1817 by John Constable 1776-1837
Não lembra uma paisagem de Constable?

Primeiro é importante esclarecer que o que chamamos de Patagônia Argentina é toda a região do rio Colorado para baixo, mais a província de La Pampa. Isso é MUITO chão, é quase a metade do país e não há vinhedos plantados por toda esta enorme área. Em toda a Argentina, a maioria das regiões aptas para a viticultura de qualidade são as que estão perto da cordilheira dos Andes, favorecidos pelo clima e solo que a grande coluna vertebral da América Latina oferece – por isso temos etiquetas de norte a sul, desde a Patagônia até Salta, enorme riqueza de castas e diferentes estilos de vinhos – sempre insisto que há muito mais para conhecer na Argentina além do já consagrado Malbec e a região de Mendoza.

Pois bem, todos os profissionais e teóricos do mundo do vinho coincidem: a Argentina é um território verdadeiramente abençoado; conseguimos alcançar níveis ideais de madurez sem muito esforço, com vinhedos naturalmente saudáveis, pois temos bastante heliofanía (horas de luz), excelente amplitude térmica (dias quentes e noites frias para a planta descansar), abundancia de água natural dos rios e do desgelo dos Andes, clima seco, pluviometria baixa (chove pouco).

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O deserto e o vale vistos do avião

E estas condições ideais para produzir vinhos de alta qualidade justamente se deram na região norte da Patagônia que conforma um vale no meio do deserto, entre as províncias de Rio Negro e Neuquén, em torno dos rios Negro e seus afluentes Neuquén e Limay. Por mais que não seja uma região com tanta altura, por estar em latitude baixa, brinda o clima adequado para a viticultura, além de seus famosos fortíssimos ventos que eliminam possíveis pragas e doenças e fazem com que a pele das uvas engrosse, aportando aromas e cor profunda em seus vinhos ricos em acidez e expressão frutada.

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Horizonte de vinhedos

Por mais que a temperatura chegue até os 35 graus Celsius no verão, o clima é majoritariamente frio, sendo ideal para castas com ciclo de maduração curto, ou seja, que não precisam de tanto tempo para chegarem ao seu ponto ideal de colheita, como é o caso do Pinot Noir e do Merlot, mas como já falei aqui, o Malbec também entra nesta lista pois, lembrem-se, é uma uva plástica, se adapta com excelência a diferentes condições geográficas e dá vinhos diferentes e únicos. Entre as brancas se destacam o Sauvignon Blanc, o Chardonnay e o Semillón.

O mais interessante para absorver disso tudo é que independente do tamanho, estilo, objetivos das bodegas que visitei, todas aparentam priorizar e buscar um produto final que realmente expresse sua origem; isso vai além do conceito de terroir, trata-se de elaborar vinhos autênticos, verdadeiros e fiéis à região, que todos sabem que é única, tem grande peso e sem dúvidas, enorme potencial para vinhos de altíssima qualidade e que surpreendem até o enófilo mais assíduo.

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Nada melhor que degustar os vinhos em seu próprio ambiente

As dicas de vinhos, roteiro e detalhes das bodegas virão em breve!

Achei mais importante introduzir e esclarecer antes os limites e características gerais desta bucólica e pitoresca zona do sul do nosso continente que tanto nos intriga…

3 vinhos brancos argentinos

Não é nenhuma novidade que nos últimos anos há uma tendência geral em exaltar a acidez dos vinhos – a grosso modo, é o que dá aquela sensação refrescante, faz salivar, limpa, gera frescor, enquanto os taninos secam a boca. Os consumidores pensavam que a acidez era um fator negativo, ela nem era descrita ao se fazer uma análise sensorial e todo vinho branco necessariamente passava por madeira e por conseguinte, fermentação malolática, seguindo a receita dos vinhos franceses.

Até pouco tempo, se você pedisse uma taça de vinho branco em um restaurante, provavelmente lhe serviriam um chardonnay, cor amarelo dourado, com notas de frutas tropicais maduras… aromas a maçã, pêra, manteiga, textura untuosa em boca, explícito passo por madeira… imaginou? Pois bem, esse estilo está dando espaço a vinhos mais jovens, ligeiros, fáceis de beber, com excelente estrutura de acidez – produtos mais sutis e delicados, eu diria.

Um bom exemplo deste novo perfil é o Hotel Sauvignon Blanc 2015, da Huentala Wines, que apresenta notas de pêssego e acácia, é delicado e vivo em boca e um agradável toque de mineralidade. Ótimo para abrir em um fim de tarde de primavera.

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O Malbec também é ótimo, direto, expressivo. E o preço, convidativo.

Um vinho mais complexo é o Gran Lurton da Bodega Piedra Negra, a primeira a explorar o Valle de Uco, lá nos anos 90, quando seus propietários franceses vieram apostar no terroir mendocino. Uma palavra: UAU! Trata-se de um vinho cor amarelo pálido, reflexos bem prateados, fluido, em um assemblage no qual o viognier aporta aromas de melão e damasco, o sauvignon blanc sua típica estrutura de acidez e notas herbais. Ficou meses em contato com as leveduras, técnica geralmente aplicada para espumantes, o que gera em boca uma agradável textura untuosa, com volume, mas sem abrir mão do frescor. Muito elegante, com personalidade, ótimo para acompanhar uma cena com frutos do mar ou comida asiática. Um dos melhores brancos argentinos que provei ultimamente, sem exageros.

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Gran Lurton 2015 – Bodegas Piedra Negra. Da mesma bodega, vale ficar de olho no Pinot Grigio, de valor mais acessível.

Para finalizar, um Sauvignon Blanc imperdível: Saltallary. Trata-se de um blend de dois terroirs cheios de expressão e identidade aqui na Argentina, além de serem a nova aposta da viticultura atual de alta gama: Molinos em Salta e Gualtallary em Mendoza, com o super enólogo Matias Michelini e a família Dávolos a cargo. Este corte me surpreendeu! Excelente acidez, bem estruturado, com as típicas notas que se esperam do varietal. São apenas 2400 garrafas, então se tiver a oportunidade de provar, não hesite!

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Um sauvignon blanc argentino imperdível

Não me esqueci de mencionar o famoso torrontés, que é a uva branca emblemática daqui e merece um post separado que virá em breve.

Dicas rápidas para maridar queijos e vinhos

Na 6a feira fui à uma degustação cujo foco era a harmonia desta dupla infalível.

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Eis as combinações que o sommelier Miguel da Vinosfera recomendou:

1- Sauvignon Blanc com queijo de cabra blando
O queijo de cabra blando tem acidez moderada, que combina perfeitamente com o frescor do Sauvignon Blanc, ambos se complementam e são perfeitos para o começo da refeição.

2- Chardonnay com queijos tipo gruyère
O Chardonnay é um vinho branco que costuma ser evolucionado em barrica, o que lhe confere untuosidade e aromas secundários de manteiga e tostado. O gruyere marida bem pois é mais forte e não tapa as fragrâncias mais complexas do vinho.

3- Cabernet Sauvignon com queijo de ovelha
O pecorino faz o casamento perfeito com os tânicos marcados e as notas de frutas vermelhas com pimenta negra do Cabernet.

4- Vinho tipo porto com queijo azul
O Malamado da família Zuccardi é um vinho doce muito famoso aqui na Argentina. Em sua versão tinta, tem dois anos em barrica e peso em boca ideal para acompanhar o queijo azul, que é difícil de maridar por seu sabor forte. Ideal para a sobremesa!

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Dica: monte o prato com uvas e frutos secos para neutralizar a boca entre um vinho e outro.

Para finalizar, duas recomendações básicas para montar uma tábua de queijos: não degustar mais de 5 estilos e calcular um promedio de 110g de queijo por comensal.
E para quem vier à Argentina, vale conferir a agenda de degustações da Vinosfera. O atendimento é maravilhoso, as catas têm preço justo e você ainda ganha um desconto para comprar vinhos da adega.

Por que o Malbec faz tanto sucesso?

A resposta é simples: ele não falha. É versátil para acompanhar diferentes refeições, é plástico quanto ao estilo, pois nos dá vinhos jovens e fáceis de beber, mas também etiquetas elaboradas e complexas, com ótimo potencial para madeira e guarda. Cai como uma luva para fazer blends pois aporta frescor e jovialidade, e seus tânicos são redondos, amáveis, não dão aquela sensação de aspereza nem de adstringência em boca típicas do Cabernet ou Carménere. Uma professora minha disse outro dia que o Malbec é como o Ricardo Darín: é carismático, vai bem em todos os papeis, não há quem não tenha o mínimo de empatia por ele. Pensando nisso, decidi descomplicá-lo:

  • Em vista, tem cor vermelha com reflexos violáceos  – o Malbec sempre chama atenção com sua cor vibrante e viva com tons púrpura.
  • Os descritores típicos em nariz são frutas de caroço maduras como ameixa, cereja negra, mirtilo e flores como a violeta.
  • Em boca, uma característica inconfundível é a sensação de dulçor; este não é um vinho amargo. Seus tânicos são redondos, possui estrutura média e textura suave.
  • Para a maridagem, uma dica fundamental: as combinações clássicas da região produtora do vinho nunca falham – Malbec é perfeito para churrascos, não há discussão.

Mas tem plasticidade e vai com qualquer comida, é só escolher o método de elaboração e os ingredientes de acordo com o estilo do vinho. Por exemplo, se você tem um Malbec de 2015, ele será jovem, frutado, corpo mais ligeiro, então vai bem com uma bruschetta napolitana ou pizzas tipo caprese. Caso abra uma garrafa de 2012, ou mesmo de 2014 com algo de madeira, você sentirá aromas de frutas mais maduras, capaz na forma de geleia, além de notas de chocolate, baunilha ou tabaco, e verá que o vinho tem mais corpo, densidade, complexidade aromática, tânicos marcados. Isso pede algo mais rico em estrutura e gordura, mas você não precisa abrir mão da pizza nem da bruschetta: é só pedir um sabor 4 queijos ou ao funghi.

Por quê essas “regras”? Porque os tânicos do vinho são mais intensos conforme o tempo de guarda e/ou barrica. Em boca e na medida certa, eles dão uma leve sensação de adstringência, “secam a saliva”, por isso é importante equilibrar comendo algo mais untuoso; e por isso também a carne de churrasco e o malbec são o casamento perfeito: ao dar uma garfada, você cria uma pelicula sedosa de gordura em sua boca; ao dar um gole, você a equilibra com a estrutura mais áspera dos tânicos, e assim ambos se compensam ao largo da refeição.

Para concluir, vale dizer que os “pais do Malbecs” são motivo de discussão até hoje, mas uma personalidade unânime é a de Domingo Catena, que desde a década de 1990 resolveu investir na produção de alta gama e a aceitação internacional foi surpreendente, pois contrastava com os vinhos de Bordeaux ao ser mais fresco, frutado, floral. Desde então, descobriu-se que era a casta perfeita para as zonas desérticas, de solo arenoso e de alta altitude da Argentina. Hoje a uva é plantada em toda a extensão do país e cada região nos brinda alguma característica diferente no produto final devido ao famoso terroir, que são os quatro fatores irrepetíveis (solo, clima, planta e fator humano) que fazem de cada vinho uma viagem única para algum cantinho do mundo.

Bebendo as estrelas

Diz a lenda que Dom Pérignon ao produzir sua primeira champagne exclamou para os outros monges: Venham rápido, eu estou provando as estrelas!


Estátua em Reims do monge orgulhoso de sua invenção – e quem não estaria?!

Pois bem, em uma degustação da Bodega Dante Robino, após provar 3 espumantes tão diferentes entre si, decidi escrever sobre o tema.

Primeiro, um pouquinho da parte técnica… Os espumantes passam por duas fermentações: a grosso modo, a primeira é feita para transformar a uva em vinho e a segunda é para criar a espuma, e pode ser feita em cada garrafa individualmente (método Champenoise) ou em grandes tanques (método Charmat, mais industrial e indicado para grandes volumes).

O primeiro método, portanto, é mais artesanal: se agrega o açúcar e as levaduras de garrafa em garrafa, e uma vez mortas por já não consumirem mais o açúcar do vinho, estas vão se nutrindo das próprias reservas energéticas, em um processo conhecido como autólisis, que é muito importante pois gera aquelas notas aromáticas secundárias clássicas de um espumante, como torrada e brioche. No final desta segunda fermentação, se adiciona o licor de expedição, que definirá o grau de dulçura, a acidez e por conseguinte, o estilo do espumante (Brut, Extra Brut,Nature, etc).

O método Champenoise, ao fazer a mágica das borbulhas em cada garrafa, exalta a complexidade e elegancia do espumante – não é à toa que veio da região francesa de Champagne!

Vamos aos vinhos:

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Gran Dante – Pinot Noir e Chardonnay – Brut Nature – 2013

O Gran Dante Brut Nature é um espumante com personalidade. En nariz tem 3 camadas aromáticas: a primeira que é própria da uva, com notas cítricas; a segunda familia de aromas é proveniente das fermentações, com notas de brioche amanteigado; e a terceira é o famoso bouquet, derivado do tempo em guarda e do método champenoise (neste caso não há passo por madeira), que traz a complexidade desse aroma frutado com um fundo de amêndoas e brioche. Em boca é seco, persistente, pesado, untuoso. Um espumante elegante e complexo, cujas borbulhas não se vêem a olho nu, mas se sentem em boca com uma textura de mousse e cremosidade.

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À esquerda é o Novecento Extra Brut, à direita, o Gran Dante e a ausência em vista das borbulhas…

Novecento Extra Brut. Uvas Chenin Blanc e Chardonnay, que agrega mais complexidade e aroma. Em nariz: frutas tropicais frescas, como maçã verde, notas cítricas e fundo aromático de pão um pouco torrado. É um espumante fresco, fácil de tomar e aperitivo, bom para um couvert ou canapés. Bem básico, sem muitos comentários relevantes para agregar.

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Eis o outro espumante que me surpreendeu: o Capriccio, de uva torrontés riojano (que por sinal é a única 100% argentina). Em nariz tem notas florais de jasmín e frutas cítricas. Apesar de ser um espumante doce, tem ótima acidez, que nos seus 8% de teor álcoolico o fazem o vinho perfeito para combinar com uma sobremesa e, por que não, aproveitar seu custo-benefício para  tomar algumas taças entre amigos antes de sair para dançar  – ou cometer a típica heresia argentina de misturar espumante com energético e gelo (eu não recomendo!).

Por ser o último dos sete vinhos que degustamos,a foto não é de minha autoria 🙂

Para finalizar, apresento um clássico tango argentino intitulado La Última Copa, que começa assim: Encha, amigo, apenas encha até o borde a minha taça de champagne, porque nesta noite de farra e alegria, a dor que tem na minha alma eu quero afogar!

 

 

 

 

Distração no mundo virtual

Selecionei alguns links interessantes para ler mais sobre vinho na internet:

1- O blog do Wine Folly, best seller que fez sucesso com seus gráficos práticos sobre vinhos e maridagens para leigos. Também vende pôsteres “pedagógicos”, ideais para decorar a casa dos enófilos.

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2- Um pouco de astrologia não faz mal a ninguém. Veja aqui qual vinho combina com seu signo.

3- Todos os rótulos do Chateau Mouton, vinho de Médoc, em Bordeaux, que a cada ano convida um artista para elaborar suas etiquetas. Nada menos que Miró, Chagall, Picasso, Anish Kapoor, entre outros mais do que consagrados ilustres das artes plásticas. Puro deleite! Aqui.

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Rótulo de 1971 feito pelo Kandinsky.

4- Se já veio a Buenos Aires e se surpreendeu negativamente com a típica rispidez de alguns garçons, veja este post sobre os melhores serviços da cidade, de acordo com a Maleva Mag (que também tem ótimas dicas gastronômicas).

5- Para finalizar, ainda sobre Buenos Aires, se você está planejando uma estadia a médio prazo, dê uma olhada nos cursos de vinhos de um ou dois meses da Escuela Argentina de Sommeliers (onde eu estudo).

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Cabernet Franc além dos blends

O Cabernet Franc, planta originária de Bordeaux e facilmente encontrada em vinhos de corte, ganha aqui na Argentina cada vez mais holofotes e prestígio como varietal. Fui em uma degustação à cegas da cepa no excelente Vinology (que recomendo tanto como loja como para fazer degustações) e mostrarei em um relato breve os cinco vinhos que provamos:

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1- Desierto Pampa – Bodega del Desierto – 2010
O interessante deste vinho é o local de produção, em La Pampa, região mais ao norte e árida da Patagonia argentina. A bodega tem uma linha mais acessível ($) chamada Desierto25, recomendo para experimentar produtos de províncias diferentes.
2- Siesta en el Tahuantinsuyu – Viñedos seleccionados por Ernesto Catena –  2012
Nome em alusão à lenda das 40 lhamas que lograram chegar nas altas cumbres dos Andes com o tesouro do último inca, que se esconde até hoje nas montanhas ao fundo dos vinhedos de Catena. Foi o preferido de muitos que estavam na degustação (e o meu também).

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3- Miguel Escorihuela Gascón Pequeñas Producciones – 2014
Bodega clássica e tradicional, que surpreende com essa linha exclusiva de pequenas produções. É um vinho que não tem erro, expressa a pura tipicidade do cabernet franc, frutas vermelhas/negras maduras, pimenta, notas herbáceas, algo de tabaco e madeira em boca. São 12 meses em carvalho, tem alto potencial de guarda, não hesite em comprar – assim como o anterior, acho que dá para encontrar no Brasil.

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4- Calamaco Reserva – 2013
Projeto familiar e sustentável do enólogo Santiago Santamaría, um dos fundadores da Bodega Melipal, e Clarisa Aristi, ao lado do Siesta do Catena este foi o “vencedor inesperado” da noite (lembrem-se que foi uma cata às cegas). O Calamaco está ganhando cada vez mais admiradores aqui na Argentina. Recomendo!!

5- Melipal – 2013
Não teve ninguém muito convencido deste –  acho que não se expressou como esperávamos nem em nariz nem em boca, foi o único que passou meio despercebido para mim.

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Resumindo o Cabernet Franc: são comuns as notas herbáceas, além de frutas como ameixa madura e cereja negra, e também algo de picante, taninos expressivos, é um vinho que costuma ter peso médio a alto na boca, final largo, algo persistente, por tanto pede um acompanhamento mais abundante como guisos, carnes vermelhas como cordeiro e churrasco. Para os vegetarianos, indico maridar com berinjela, ou também pratos com cogumelos selvagens.

É um vinho que costuma ser complexo, elegante, ter alta graduação alcoólica, sendo ideal para o outono/inverno que está aí – é uma boa combinação com o clássico fondue de queijo. Nada de saladinhas leves ou tomá-lo de estômago vazio. Vamos nos animar a provar os tintos argentinos além do já consagrado Malbec! Salud!

Degustando com o domador do leão de duas cabeças, o homem-bala e o magnífico equilibrista

Semana passada fui à degustação de El Equilibrista, projeto do enólogo Juan Ubaldini no excelente Almacén Otamendi, bairro de Caballito. A cata foi realizada pelos sócios da Fulano Wines, Vicky Belenisky e Leo Dal Maso, representantes da linha aqui em Buenos Aires. A família El Equilibrista possui três vinhos de produção estável – El Joven, El Sensacional, El Gran – e outras tantas etiquetas limitadas que são elaboradas a partir de cortes super especiais.

Por se tratar de vinhos de autor, são produtos focados na personalidade dos vinhos, de modo que cada etiqueta é única e respeita a singularidade de cada terreno que deu sua origem. Juan optou por não ter finca própia justamente em pról da liberdade de escolher as melhores cepas das melhores terras em Mendoza, em especial no Valle de Uco e em Vista Flores. Até os criativos nomes e design dos rótulos – todos relacionados ao circo e criados pelo estúdio Arena Bahamonde – são dignos de contemplação.

A conclusão? Degustar um Equilibrista será sempre uma experência complexa e irrepetível; recomendo comprar qualquer um da família se alguém tiver a oportunidade (e sorte) de encontrar no Brasil. Indo ao que interessa, eis os vinhos que degustamos:

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El Gigante, El Joven, La Intrépida Bala Humana, El Magnífico, El Domador del Monstruo de dos Cabezas.

1- “El joven“. 100% Malbec, 2015. Zero madeira, bem frutado. Segundo o Juan, é um vinho fácil, ideal para la previa, como chamamos aqui as famosas “prés”, ou seja, aquele momento de acender o fogo de um churrasco, ou de beliscar uns petiscos antes do jantar.  Este vinho é como o Joven circense que aparece no rótulo, aquele que faz de tudo, que se dá bem com todos e funciona para qualquer ocasião.

2- “La Intrépida Bala Humana”. Edição limitada. Elaborado 10% em cofermentação e 90% colheita normal. Aqui a analogia é traçada com o homem bala do circo, que sem receios do perigo é lançado do canhão e voa para longe, assim como seu arriscado corte de Merlot e Cabernet Franc, uma maravilhosa explosão de sabores.

3- “Domador del monstruo de dos cabezas“: Blend de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, 60% e 40% respectivamente, tal como foi a produção de cepas nas fincas. Outra edição limitada.

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4- “El Magnífico”, 2013.
60% Malbec, 20% Syrah, 20% Merlot. Também de tiragem limitada, me distraí na degustação e não pude anotar mais informações, de todos os modos, super recomendo!

5- “El Gigante”, 2013. Mesma fórmula do anterior, 60% Malbec, 20% Syrah, 20% Merlot em uma garrafa de 1,5 litro. A ideia desta etiqueta, de apenas 100 garrafas, é a de um vinho que evoluísse com o tempo. As três cepas são as do Magnífico, mas a tiragem foi realizada de modo diferente.

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Como o rótulo nos indica, é de fato um vinho forte, ideal para uma refeição abundante.

Para finalizar o espetáculo, seguem os outros dois vinhos da linha permanente:

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Muito amor pela delicadeza dos rótulos!

Almacén Otamendi: Otamendi, 101. Caballito, Buenos Aires. Aberto de 2a a sábado, 10h-14h e 17h-21h30. Os donos, a Vicky da Fulano Wines e seu marido Gustavo são muito atenciosos, recomendo conhecer o local para comprar vinhos de bodegas exclusivas e participar das inúmeras degustações que realizam!

Adega Portela

Somos Flávia e Samara Portela, mãe e filha, brasileiras com nacionalidade portuguesa – ora pois. Nossa família é da região do Douro, de onde saem vinhos encorpados, de personalidade e é a única região onde se pode fabricar o famoso Vinho do Porto. Esse espaço é para falar de vinhos – suas lendas, seus paladares, sua história, sua degustação. Portanto, vamos começar contando um pouco dessa história, antes de entrar nos vinhos propriamente ditos.
No século 17, os britânicos começaram a importar grandes quantidades de vinho português. Para que a bebida resistisse às longas viagens marítimas, os comerciantes ingleses acrescentavam aguardente (vínica) nos barris. Os marinheiros logo perceberam que, além de conservar o vinho por mais tempo, a adição de álcool também realçava o sabor da bebida e aumentava o seu poder de embriaguez, tornando-a mais licorosa! Acabaram criando, sem querer, a fórmula do vinho do Porto.

 

O Douro, em Portugal, foi a primeira região demarcada do mundo, pelo primeiro-ministro de Portugal, o Marquês de Pombal, em 1756. Esta região vai ao longo do Rio Douro e seus afluentes, desde Barqueiros (Mesão Frio*) até Barca D’Alva, numa área de 250.000 ha.

* por coincidência ou não, Mesão Frio é a cidade de nossa família.

No século XIX, o escocês Barão de Forrester foi o primeiro a desenhar os mapas desta região do vinho do Porto, estudando a sua viticultura exaustivamente, inclusive com registro de fotografias. Diz a lenda que em 1861, conduzia o seu barco rabelo* pelo Cachão da Valeira e este virou! Forrester foi arrastado para o fundo do rio por causa do peso das moedas que levava consigo. O seu corpo nunca foi encontrado. Nessa derradeira viagem, estava com sua amante, a “Ferreirinha”, que segundo reza a história, não se afogou porque as saias de balão que então vestia, a fizeram flutuar até à margem do Rio Douro.

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* O barco rabelo é uma embarcação portuguesa, típica do Rio Douro que tradicionalmente transportava as pipas de Vinho do Porto do Alto Douro