Uma tarde em Poblenou (e um vermouth imperdível em Barcelona)

Vou ser sincera aqui. Não conhecia a história de Poblenou e tampouco saí de lá sabendo. Aparentemente era um bairro conhecido como a “Manchester Catalã” pois há um monte de fábricas hoje abandonadas e atualmente se converteu em um pólo criativo da cidade. Eu não sabia de nada disso, era a parada final de uma viagem longa de um mês e só queria mesmo viver um domingo em Barcelona como uma local, se isso fosse possível. Portanto saí ao redor de meio-dia de La Pedrera (o auge do turismo do dia, imperdível como tudo do Gaudí, é claro), peguei a linha 4 (amarela) do metrô, resisti à tentação de parar na Barceloneta para dar um mergulho e desci algumas estações depois em Poblenou.

Bitácora: restaurante com alma de bairro e tapas maravilhosos

Poucos passos sem rumo após a saída do metrô e caímos diretamente nas Ramblas de Poblenou cheias de restaurantes e cafezinhos simpáticos com moradores relaxados tomando uma caña. Aliás, que cidade boa de se viver, viu? Eu saía para tomar café e o pessoal já estava comendo pão com tomate acompanhado por sua cervejinha às 9h da manhã antes do trabalho (metas de vida).

Enfim, continuamos caminhando e chegamos ao Bitácora, restaurante de tapas tranquilo em uma simpática e silenciosa praça com atmosfera de bairro mesmo. Pedimos uma tempura de aspargos e pão com tomate (como sempre) para começar, depois uma fideuá (a clássica paella com spaghetti ao invés de arroz, típica de Valencia). O vinho escolhido foi o Pipa* 2018, que é o nome deste simpático macaco da foto, já que a renda é direcionada para uma ONG que recuperou este e outros primatas.

Fideuá e Malvasia

Bom, o Pipa* é um monovarietal (observem o infâme trocadilho pois mono é macaco em castelhano) de Malvasía da vinícola La Vinyetà, da região catalã de Empordà. Bem aromático, expressivo, perfume de flores brancas, algo de lichia, fresco, facílimo de tomar, perfeito para aquela tarde de calor e a comida que pedimos.

Aqui vale esclarecer um detalhe. Ao pesquisar sobre a origem da Malvasia que há na Catalunha, descobri que na região existem duas castas diferentes que na verdade não têm nenhum parentesco com a uva homônima que há na Grécia, Itália e em Portugal. Uma é a Malvasia de Sitges, usada para elaborar vinhos doces em Penedès e a outra “Malvasía” – a do vinho que tomei – é a Subirat Parent ou Alarije, cuja origem é a região de Extremadura na Espanha.

Sempre é hora de um bom aperitivo!

Pois bem, almoço finalizado, seguimos caminhando para um lugar que estava bastante ansiosa para conhecer pois haviam me falado muito bem, o Vermut & Sifó , que oferece um vermouth de fabricação própria – o Rosique Vermouth, da Terra Alta – e um toque particular que eu amei: é servido com uma pipeta que vem com uma deliciosa salsa de berberechos com o clássico molho Espinaler (eu trouxe na mala o da marca Baymar, pois é o que usam nesse bar).

Vermutería em Poblenou

Minha tarde em Poblenou foi calma e com experiências gastronômicas aparentemente simples porém incrivelmente saborosas e inesquecíveis. Do jeito que eu gosto! Não vi nenhum turista (nada contra) e aproveitei para relaxar bastante. Recomendadíssimo!

Bitácora: Plaça de Unió, 24
Vermut & Sifó: Bilbao 18

Tomando Sumoll do Pènedes no Bar Salvatge em Barcelona

Em Barcelona tive um breve e profundo mergulho no mundo mágico e irresistível das uvas autóctones catalãs. Afinal, nem só de Cava e das conhecidas uvas que o compõem – Macabeo, Parellada e Xarel-lo – está composto o complexo mapa de vinhos da região. Pois bem, um dos vinhos que me voló la cabeza neste verão foi um monovarietal de Sumoll Negra da Vinyes Singulars, do produtor Ignaci Segui, que provei no Bar Salvatge. Inesquecível, foi amor puro e efêmero pois se acabou em minutos. Vamos por partes então.

Sobre a Sumoll: uva originária da Catalunha, foi ofuscada décadas atrás por outras variedades mais conhecidas pelo mercado internacional como Merlot e Cabernet Sauvignon e também para o plantio de variedades brancas para produzir Cava em Pénedes. Desde os anos 2000, os produtores voltaram a investir em sua uva local, muitas vezes usada para blends, sendo a MontRubí com seu projeto Gayntus a primeira a vinificar 100% Sumoll, e atualmente existem entre 100 e 200 hectáreas plantadas na região, onde muitos a chamam de Pinot Noir do Mediterrâneo – embora eu não goste muito dessas comparações.

Um dado curioso é que científicos australianos realizaram um cruze entre a Sumoll (que se adapta perfeitamente a climas secos) e a Cabernet Sauvignon, dando origem a quatro castas que atualmente se produzem do outro lado do mundo: Tiro, Cienna, Vermilion y Rubienne. Há quem diga que este foi o empurrão final para que mais produtores catalães voltassem a valorizar sua uva autóctone – que aliás também se produz nas Ilhas Canárias, onde é conhecida como Vijariego Negra e foi introduzida via Andaluzia, onde há plantações em Jerez de la Frontera.

Degustando: Na taça, já chama atenção sua cor intensa, viva, avermelhada porém translúcida. Se mostra aberto e expressivo no olfato, com uma explosão de frutas vermelhas frescas e suculentas como romã e framboesa, toques de alecrim, tomilho e sotobosque mediterrâneo (que são as ervas locais), mostrando ainda mais camadas aromáticas de fumaça e grafite com o tempo. Em boca continua surpreendendo com sua acidez tão vibrante que persiste do início ao fim do paladar e textura tânica empoeirada e mineral. Pensemos em eletricidade, tensão e um final fresco terroso que lhe dá um tom de rusticidade. Puro suco da uva, sem sulfitos, elaborado é claro naturalmente. Pena que a produção é super limitada, 1000 garrafas apenas. Ignasi Seguí produz nas mesmas terras onde seus ancestrais faziam vinho desde 1400 e maioria de suas vides foram plantadas na décadas de 1960 e 70. Um nome que ficarei de olho para as próximas visitas na Catalunha.

Para tomar na taça direto da torneira.

E para finalizar, uma das melhores dicas de Barcelona, sem dúvidas, é o Bar Salvatge, como o nome diz, difusor da cultura de vinhos selvagens, onde se pode tomar taças de vinhos diretamente dos grifos e também provar dezenas de garrafas de exemplares únicos de vinhos naturais. A comida merece aplausos à parte: matéria prima de qualidade e super saborosa. Tem tanta coisa para provar que uma só visita foi pouco…

Referências:
Descubriendo la Sumoll del Penedès
10 cosas que debes saber sobre la Sumoll, la Pinot Noir del Mediterráneo
Robinson J., Harding J., Vouillamoz J. (2013). Wine Grapes. ePub edition.

Na estrada com vinhos de Portugal – Talasnal e Aldeias de Xisto

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog. Para ler a primeira parte sobre a aldeia de Odeceixe na Costa Vicentina, clique aqui, para a segunda parte sobre a Praia de Carvoeiro, aqui e sobre um dos melhores segredos do Algarve, aqui.

Parte 4 – O bosque encantado que emoldura Talasnal: lúdica e autêntica aldeia de xisto na Serra da Lousã

Ao planejar nossos destinos em Portugal optamos por deixar dois dias livres, totalmente em aberto, no começo e no fim. A ideia era aproveitar mesmo o encantador fato de estar sem rumo, sem hotel reservado, e passar a noite por cidades desconhecidas ou aldeias bem pequenas no meio do caminho. Se tivéssemos mais tempo, teríamos reservado a maior parte dos dias para nos entregarmos ao ocaso, porém, com o tempo mais ajustado, foi necessário um planejamento prévio para não perder muito tempo da viagem no Google Maps, entrando em sites de hospedagem e buscando informações no meio da estrada para decidir esses detalhes.

Na ida ao Algarve, paramos em Odeceixe, e na volta… bom, honestamente, não tínhamos a menor ideia do nosso destino surpresa. Havia, porém, um desejo e um lamento: ao eleger dias de praia, cortamos a estadia nas Aldeias de Xisto, antigo sonho desde que vi pela primeira vez no Pinterest, e que me remeteu a um cenário digno de elfos e duendes saídos dos melhores livros de Tolkien.

“Terreiro das Bruxas” e cervos no caminho da Lousã, como não amar?

Talvez a mais famosa seja Piódão na Serra da Estrela, porém há outras 27 que integram o Programa das Aldeias de Xisto espalhadas pela Serra da Lousã, Serra do Açor, Zêzera e Tejo-Ocreza, no centro de Portugal. Para dar uma chance e não dizer que não tentamos, decidimos então pegar a A-13 e depois a N-342 até a cidade de Lousã para ver se a subida para as aldeias nos levaria muito tempo (na verdade nos preocupava se era demasiado íngreme), senão tudo bem, voltaríamos para a zona de Coimbra e passaríamos a noite por ali para seguir para o Douro.

De acordo com o Google Maps a subida levaria apenas 20 minutos, porém as curvas sinuosas, a falta de prática na condução e o medo dos abismos causados por uma inata vertigem do motorista e da co-pilota que vos escreve eram fatores que nos fizeram duvidar bastante. Porém, caminhos sinuosos costumam ser recompensadores, e decidimos nos jogar. Honestamente, até hoje não consigo acreditar que duvidamos em subir. Foi a melhor decisão de toda a viagem, sem dúvidas.

Um adendo: se tem medo de altura como eu, respira fundo, reza ou medita. A subida é breve mas haviam curvas bem fechadas e sem muretas de proteção que nos fizeram tardar um pouco mais que o tempo sugerido no app (pois, em outras palavras, entramos em pânico e dirigimos a 10km/h- risos). De todos os modos, você estará em uma estrada deslumbrante, entrando aos poucos no ritmo da serra, rodeada por um bosque mágico de infinitos pinheiros, ar puro e fresco, silêncio e contemplação.

Tive a sorte de ter uma belíssima recomendação de hospedagem em Talasnal, uma autêntica casa de xisto, espaçosa, limpa e bem equipada, a Montanhas de Amor, cujo anfitrião é o simpático Joaquim, que também atende na taberna que fica logo à entrada da aldeia, onde há um pequeno estacionamento (na verdade, é obrigatório, pois não podem entrar carros) e pegamos somente o necessário para relaxar até o dia seguinte: casacos, tênis, saca rolhas e livros.

Talasnal foi amor à primeira vista. Detalhe para as folhas de parra entrelaçando a casa.

Chegamos em torno das 17h e deu tempo de sobra para caminhar por todos os cantinhos da aldeia e ainda fazer uma trilha pela beira do riacho – eu queria ter visto cervos ou javalis, mas não tive “sorte” (entre aspas pois a benção de estar nesse lugar é realmente indescritível).

Paz, flores e pinheiros na caminhada com ruídos da água que pareciam sair de uma app de meditação
“O Curral”: sebo, café e bar

Acima, um retrato do casal Ti’Lena, parteira e conhecedora de ervas medicinais (amei), e Ti’Manuel, construtor de casas e estradas e músico de harmônica, os últimos residentes naturais de Talasnal, falecidos há alguns anos atrás. Atualmente a aldeia está sendo reocupada por uma nova geração que mora principalmente em Lousã e faz todos os dias um bate e volta para trabalhar ali.

Uma vista dos sonhos para ver o atardecer n’O Curral
Delicioso pastel de castanhas e amêndoas

Decidimos sentar n’O Retalhinho, outro pequeno café atendido um simpático senhor que nos serviu uma jarra de vinho da casa por 70 centavos de euro (se não me engano era a única bebida da carta, além de cerveja).

Vida real é assim, às vezes os melhores momentos são com vinhos sem etiqueta

Logo fomos para a taberna da Montanhas de Amor, onde Joaquim nos esperava com o jantar que havíamos reservado: tábua de queijos, charcuterie e alheiras (1 vegetariana, para mim). Havia entre algumas opções dos vinhos mais tradicionais de Portugal uma garrafa da Quinta de Foz de Arouce 2013. Classificado como vinho regional Beira Atlântico, trata-se do projeto de José Ramos da Fonseca na Serra da Lousã. Bingo! Vinho decidido. Portugal é assim mesmo, onde você estiver, vai ter sempre algum vinho daquela região, é só procurar! Que país de sorte.

Alheiras vegetarianas e o Quinta de Foz de Arouce 2013

Foz de Arouce é um blend clássico da região da Beira, composto pela emblemática Baga (80%) e Touriga Nacional (20%). Esse é um vinho com profundidade, ou seja, que é misterioso e tímido, não se abre de uma vez. Percebe-se primeiro notas que lembram frutos do bosque como mirtilo e cassis maduros, logo surgem camadas aromáticas em tons de fumaça e especiarias, e lá no fundo um punhado de ervas secas e resina que me recordaram da caminhada que tinha feito no bosque há uma hora atrás. No paladar seus potentes taninos já estavam amaciados pelos 6 anos em garrafa, balanceados em seu corpo ajustado e compacto, com acidez média-alta, textura sedosa e final duradouro. Ideal para quem curte um estilo de vinhos mais estruturado, porém sem perder a elegância em nenhum momento, e ainda com potencial de evolução por mais alguns anos.

Lugar cenográfico: parecem uvas artificais, mas eu juro que esses parrais são de verdade e estão espalhados em todas as casas.

Além de sermos os únicos jantando na taberna (e também no Retalhinho), percebemos enquanto comíamos que o número de carros no estacionamento que já era pequeno, ia diminuindo cada vez mais e, como se fosse possível, a vila toda ia ficando mais e mais silenciosa. Era ao redor de 20h quando decidimos terminar nosso vinho na varanda de casa para que Joaquim e seu irmão pudessem fechar o restaurante e voltar à Lousã. Foi neste momento que reparei que não havia mais ninguém na aldeia (era um domingo), também não escutei vozes, nem passos, portanto tenho a impressão de que éramos apenas os dois naquela vastidão infinita de pedras e verde. De fato os turistas costumam apenas visitar e passar o dia, ao invés de pernoitar por ali.

Noite silenciosa em Talasnal

Ao amanhecer, passamos em Casal Novo, a alguns km dali, para dar uma voltinha – novamente, tudo fechado, éramos os únicos caminhando pela aldeia, que é ainda mais rústica que Talasnal, com vistas igualmente lindas, vale muito a pena o passeio. Não podemos visitar as outras três da região (Chiqueiro, Cerdeira e Candal), nem de ir ao famoso balanço com vista pois o motorista queria sair logo daquela zona de vertigem (risos).

Hortências maravilhosas em Casal Novo

E assim nos despedimos da Serra da Lousã. Foi uma passagem fugaz, às vezes sinto mesmo que foi um sonho pois esse lugar aparenta estar em outra dimensão do universo. Portugal é realmente uma caixinha de surpresas, onde cada lugar em que passo me remete a algo nostálgico, a uma espécie de reencontro e conexão profunda que tenho com essas terras. No próximo post conto um pouquinho sobre o destino seguinte, a terra do meu avô Portela, o Alto Douro Vinhateiro.

Na estrada com vinhos de Portugal – Segredos de Algarve

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog. Para ler a primeira parte sobre a aldeia de Odeceixe na Costa Vicentina, clique aqui e a segunda parte sobre a Praia de Carvoeiro, aqui.

Parte 3 – Dias em Algarve: as praias paradisíacas do sul de Portugal

Depois de acordar e tomar café da manhã contemplando a vista do quarto com as gaivotas voando na praia de Carvoeiro, subimos no carro e fomos pela estrada em direção a Portimão rumo ao Restaurante Caniço. “Mas já saíram para almoçar?”, se questionará a leitora atenta; pois bem, sou dessas que planeja o dia inteiro em função de onde comer/beber, e este se tratava de um dos segredos melhores guardados do Algarve (se é que isso é possível) e valia uma tarde inteira de passeio. Explico: se trata de um restaurante “escondido” dentro de um condomínio residencial na Prainha de Três irmãos, em Alvor.

A vista do mirante em Alvor

Fiz a reserva com algumas semanas de antecedência pelo site deles e também avisei que era meu aniversário. A escolha foi bastante acertada pois a tal da Prainha estava vazia e é possível caminhar por dentro de uma falésia que dava para outra extensão de areia com águas igualmente cristalinas, paisagens de cair o queixo e poucas pessoas em volta. Aliás, quando em Algarve, sempre caminhe pelas pedras buscando passagens secretas pois as chances de haver praias desertas a poucos passos são grandes.

Nada mal uma praia dessas para esperar a hora do almoço!

Curtimos o mar (embora ainda bem frio no final de junho) e o sol, e quando bateu a fome seguimos para nossa mesa, que eu já havia reservado há algumas semanas, onde me esperavam com um buquê de flores pois avisei que era meu aniversário. Um gesto simples, mas que faz o cliente se sentir especial – eu que trabalho em serviço me alegro quando vejo estabelecimentos atentos a esse tipo de delicadeza.

Para os aperitivos, começamos com sopa de peixe e ostras, que eu não consigo resistir (também queria percebes mas infelizmente não tinham naquele dia).

Ostras deliciosas

E indo ao que interessa, optei por um vinho do Alentejo, o Herdade dos Grous 2018, blend de Antão Vaz (a branca mais emblemática alentejana), Arinto e Gouveio, que era exatamente o que eu buscava: notas de frutas tropicais como mamão e abacaxi, voluminoso, algo untuoso, e elegante em seu final fresco e persistente. Perfeito para a pesca que viria a seguir.

Branco do Alentejo: Herdade do Grous 2018

O garçom levou à mesa esta bandeja com os produtos frescos do dia e comentou um pouco sobre cada um – foi bem interessante conhecer mais sobre a variedade de pesca local, e afinal optamos pelo cantaril, que tem escama avermelhada e nada bem colado às pedras e encostas, se alimentando de pequenos mariscos.

O único problema é ter que escolher um só!
Cantaril com legumes ao vapor

E o Caniço também tem seu próprio vinho, outro branco alentejano que oferecem em taça. Foi perfeito para finalizar o almoço com seu perfil mais estruturado, frutas de caroço maduras e mantecoso.

O vinho do Caniço, outro branco do Alentejo

Para finalizar, entre uma vasta opção de sobremesas, optamos pela clássica queijo de cabra e doce, bem leve, para continuar desfrutando das praias que haviam no caminho de volta até Carvoeiro.

Há um mirante ali pertinho com essa vista impactante das falésias do Algarve

Depois dessa vista panorâmica, paramos em algumas praias que íamos decidindo na estrada mesmo, pelas placas no caminho e pelo Google Maps. Recomendo a Praia do Carvalho e Praia da Marinha, que estavam praticamente desertas e, como tudo no Algarve, lindas de morrer.

No dia seguinte fizemos o passeio de kayak que sai de Lagos e passa por meio das falésias e cavernas, foi um modo diferente de apreciar ainda mais toda a exuberância da região. Antes aproveitamos para conhecer as famosas (e portanto mais cheias) Praia do Camilo e Praia de Dona Ana. Uma dica: faça o passeio de kayak na primeira hora da manhã, pois fiz de tarde e já havia mais movimento de barcos gerando mais ondas (exigindo mais esforço físico) e também acho que as águas já não estavam tãaao cristalinas.

Vista da praia do Camilo onde se pode observar o percurso do passeio de kayak

E enfim, embora muito díficil, após 4 dias nos despediríamos desse lugar mágico, diferente de qualquer outro destino de praia que já fui na vida, e seguiríamos em direção ao Norte de Portugal, com uma parada no meio do caminho que foi muito especial – em breve post!

Praia de Dona Ana e os kayaks ao fundo

Como é difícil ir embora do Algarve!

Na estrada com vinhos de Portugal – Carvoeiro

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog. Para ler a primeira parte sobre a aldeia de Odeceixe na Costa Vicentina, clique aqui.

Parte 2 – Dias em Algarve: chegando em Carvoeiro

Conseguimos reservar 4 dias das férias para descansar no sul de Portugal, em Algarve, para curtir um pouco o verão europeu. Optei pela hospedagem em Carvoeiro ao invés de Lagos pois me falaram que entre as praias mais urbanizadas, a primeira era mais vazia, limpa e bonita. Quando consegui um AirBnb com essa vista, em frente à orla, nem pensei duas vezes.

Nossa escolha foi acertada pois não buscávamos nenhum tipo de badalação, apenas descanso. A praia é frequentada majoritariamente por famílias inglesas e não encontrei muitas opções gastronômicas locais mais elaboradas, apenas culinária internacional (hindu, italiana, pubs), o que não me incomodou em nada pois o foco desses dias era mesmo relaxar, curtir o mar e as paisagens das falésias que pareciam coisa de outro planeta.

Dito isso, ao atardecer compramos algo para beliscar, o que em Portugal significava uma boa lata de sardinhas, algum queijo e, claro, vinho regional. A região demarcada do Algarve possui 4 Denominações de Origem, sendo elas a D.O. Lagos, D.O. Lagoa, D.O Távira e D.O. Portimão. Se utilizam principalmente as castas brancas Síria (Roupeiro), Arinto e Malvasía, e as tintas Negra Mole, Trincadeira e Castelão, entre outras.

Imprevisto 2018, vinho regional do Algarve

Confesso que não tinha pesquisado muitas referências sobre os produtores locais, portanto me utilizei do único recurso que me restava no mercadinho da praia: escolher a garrafa pelo rótulo. Afinal, é para isso que memorizamos leis, regiões, montanhas, rios e castas na carreira de sommelier, não é mesmo? Brincadeiras à parte, somada às pouquíssimas opções que encontrei, escolhi enfim o Imprevisto 2018, cujo nome, design e preço (6 euros) me simpatizaram bastante. Este branco da vinícola Convento do Paraíso, um corte de Viognier, Arinto e Alvarinho, se mostrou aromático, com notas de pêssegos e flores delicadas, porém curto em boca. É um vinho descomplicado e jovem, ideal para refrescar e tomar de dia na praia, não pede acompanhamentos além de uns petiscos, apenas serví-lo bem geladinho após um mergulho no mar.

Carvoeiro à noite

Enfim escureceu e fomos dar uma voltinha na cidade e dormir cedo. O dia seguinte virá em formato de post, com a melhor dica gastronômica do Algarve!

Na estrada com vinhos de Portugal – Costa Vicentina

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog.

Parte 1 – O caminho de Lisboa a Algarve pelo Parque Nacional do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, que vai desde Setúbal até as praias do sul de Portugal.

Alugamos um carro em Lisboa e em seguida fizemos uma parada estratégica em Comporta, uma simpática praia com brisa, grande extensão de areia e água azul ao lado de Setúbal. Infelizmente não tive tempo de conhecer a cidade, que dizem ser uma graça.

A bela praia de Comporta

No caminho ao sul, uma única e incansável vista: dezenas e mais dezenas de sobreiros descortiçados, que não deixam dúvidas de que estamos entrando no mágico Alentejo.

Deixamos para decidir na estrada o lugar em que pernoitaríamos. Ao passar por uma linda colina rodeada de casinhas brancas, decidimos parar em Odeceixe, uma pequena vila com 900 habitantes, onde um rio que desagua no Atlântico marca a fronteira entre o Alentejo e o Algarve.

Odeceixe pedia simplicidade; essa era a vista do hotel que encontramos logo à entrada da aldeia.
Detalhes arquitetônicos
Uma vila onde o tempo se move lentamente

Havia apenas um desejo ao jantar: vinho local e frutos do mar, é claro. Foi aí que conheci a Vicentino – Vinhas da Costa Atlântica, da Frupor, cujo propietário é o noruguês Ole Martin Siem, com uvas que provém de Zambujeira do Mar e seu clima moderado pelos ventos do oceano e solos franco-arenosos e argilo-xistosos.

Vicentino

Elegi o Blend Branco 2017, composto por Semillón, Arinto e Alvarinho, cítrico e delicado, com um final refrescante e quase salino que adoro. Para acompanhar, uma boa porção de amêijoas e depois uma de sardinhas também.

Impossível resistir a uma porção de sardinhas

Às 23h o restaurante estava fechando, então caminhamos um pouco pela aldeia para tomar algum digestivo e comer uma sobremesa. Foi na pizzaria da praça que pedimos uma deliciosa torta algarvia, de laranja e amêndoas, com vinho do Porto e Moscatel de Setúbal da casa (e é claro que foi o último que harmonizou adequadamente).

Ao amanhecer, uma parada essencial antes de descer rumo ao sul do Algarve: o encontro da ribeira de Odeceixe com o Oceano Atlântico, vista inesquecível para coroar essa parada tão aconchegante na Costa Vicentina.

À direita, o rio Odeceixe.
E à esquerda, as falésias emoldurando a praia banhada pelo Oceano Atlântico.

Assim, felizes e com a paz de ver o mar após descansar na pequena aldeia de Odeceixe, fomos descendo rumo à Carvoeiro – mais no próximo post.

Uma adega

Uma adega é aquele local em que armazenamos nossos tesouros. Vinhos diferentes que trouxemos na mala fazendo cálculos para não exceder o peso, ou envolvendo um montão de roupas e rezando no avião para que cheguem sãos e salvos em casa. É aquele vinho que é especial porque o namorado lhe presenteou e vocês estão esperando um momento legal para abrí-lo. É a lembrança de uma tarde feliz em algum lugar da Europa em que você o experimentou e decidiu trazer para casa outro igualzinho para reviver aquele momento em meio ao caos da rotina. Ou o vinho que você costuma tomar com a família nos almoços de domingo e que traz todas as lembranças do aconchego de casa, no meu caso tão distante e com uma saudade latente que levo no peito. Também é aquele vinho baratex que você comprou meio sem pensar no supermercado e simplesmente armazenou em meio às outras pequenas joias que ali descansam em paciência, aguardando em silêncio seu momento de ser degustadas. Minha cava é assim, uma miscelânea bem aleatória de uvas, lugares e safras. É, portanto, esse pequeno cantinho da sala que guarda os tesouros intangíveis e mais valiosos: memórias, histórias, desejos. E decidi trazer essa ideia pra cá. Porque se uma adega é muito mais do que um espaço físico em que armazenamos um saboroso líquido, a Adega Portela virtual também o poderia ser. E em um momento no qual a ânsia de colocar palavras para fora urge, por quê não voltar a usar este espaço para discorrer sobre vinhos e suas subjetividades também?

O guia definitivo: explorando as vinícolas de Mendoza

Em março fiz uma viagem de dez dias para Mendoza, durante a colheita de 2017. Recorri mais de 20 vinícolas, degustei dezenas e dezenas de vinhos e pude conhecer os enólogos mais referentes da região – um verdadeiro sonho!

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As vinícolas que eu visitei foram: Septima, Achaval Ferrer, Chandon, Cheval des Andes, Terraza de los Andes, Norton, Lagarde, Renacer, Trapiche, Rosell Boher, Dante Robino, Catena Zapata, Escorihuela Gascón, Ernesto Catena Vineyards, Durigutti, Rutini Uco, Superuco, Zuccardi Altamira, Finca Flichman, Nieto Senetiner, López, Altavista e Luigi Bosca. Ufa!

Muitos amigos me perguntam como se organizar para uma viagem vitivinícola. Para ajudar quem está planejando um tour pela zona, vou enumerar alguns momentos inesquecíveis do meu itinerário em outro post. Mas antes, os dados principais de logística para você montar sua viagem:

  • Mendoza está a 1h50 de voo de Buenos Aires. A maioria dos voos sai do Aeroparque Jorge Newbery, que é o de Palermo, bem mais perto e prático do que ir até o de Ezeiza. As companhias Aerolíneas, Lan e Andes fazem voos diretos.
  • De ônibus são 13h30, você pode buscar passagens rodoviárias por toda a Argentina no site Plataforma 10. A rodoviária de Buenos Aires se chama Terminal de Retiro e fica no centro da cidade. Sei que é muito chão, mas como já fiz este trecho durante um mochilão há muitos anos atrás, deixo o link caso alguém esteja nesta onda de aventura e economia.
  • Nesse site você também pode comprar passagens para o trecho Mendoza – Santiago de Chile (duração de 7h), que recomendo muito para os aventureiros que têm alguns dias extras de viagem, a vista da cordilheira dos Andes é singular e impressionante!
  • Na última viagem de Mendoza, cujo foco era visitar vinícolas, eu fiquei hospedada em Chacras de Coria, que é um pequeno distrito bucólico e residencial a 15 minutos do centro de Mendoza Capital. Achei interessante pois muitas bodegas se encontram nesta zona, facilitando bastante o acesso e a locomoção. Lista de hotéis aqui.
  • Este é o tipo de viagem que recomendo fazer um pequeno planejamento antes de ir e pesquisar as bodegas que você quer conhecer, pois algumas visitas têm que ser reservadas com antecipação e também é interessante ter um recorrido base para montar seu cronograma dia por dia. Não gosto de viagens 100% planejadas, adoro a flexibilidade e o “deixar se surpreender” ao chegar numa nova cidade, mas uma vez fui parar em Mendoza no meio de um mochilão com duas amigas em pleno janeiro, verão 40 graus, me lembro que tomamos uns vinhos tintos na hora do almoço que estavam em temperatura ambiente e passamos mal pois fazia muito calor, só queríamos dormir, e depois decidimos contratar o wine tour do nosso hostel, que foi bem “turistão” e super impessoal. Portanto, ter um mínimo de organização é sempre interessante para você ter um recorrido feliz e satisfatório!

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Malbec na Catena Zapata: como é lindo ver as uvas no seu ponto de maduração!

  • Obviamente não recomendo alugar carro pois a ideia é degustar vinhos; além disso é bem melhor contratar um remis (carro particular) com um motorista local que conheça a região. Lembre-se que em Mendoza ainda há muitas zonas remotas, especialmente algumas partes de Valle de Uco, portanto não dá para confiar 100% no celular e no google maps.

Falando nisso, eu que adoro um mapa criei um documento no google maps com as bodegas que visitei e também as que recomendo. Desse modo vocês podem calcular bem a distância entre uma e outra e ver as que estão perto e visitá-las no mesmo dia (eu recomendo duas, no máximo três por dia).

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Clique aqui para abrir no Google Maps

Se vocês observarem, embora pareça muita coisa, os 10 dias e 24 bodegas que visitei estão longe de dar conta de tudo o que Mendoza tem a oferecer. Portanto, minha dica principal é não se preocupar em ver o máximo de vinícolas possíveis, a quantidade aqui é irrelevante pois é impossível conhecer todas em uma só viagem!

Recomendo fazer tudo com calma, mesmo tendo 2 dias ou uma semana na região, o importante é não ter pressa, aproveitar bastante as visitas, as conversas, as degustações! Mendoza tem essa singularidade que é a cordilheira dos Andes como pano de fundo das vinícolas, o que a torna realmente uma viagem mágica e inesquecível, não só pelos vinhos, mas também pela natureza que a envolve.

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Dia lindo e nublado na bodega Rutini, em Valle de Uco.

Nos próximos posts vou contar mais sobre a visita nas bodegas. Você já foi para Mendoza, ou planeja ir? Comente aqui sua experiência! Se ficou com alguma dúvida para organizar sua viagem, por favor comente também!

Chacra e Noemía, da Patagônia: “o vinho é esse lugar”

Desde Buenos Aires havia um burburinho que anunciava que o último dia de viagem terminaria com chave de ouro, com visitas às bodegas Chacra e Noemía. Se não reconheceu esses dois nomes, recomendo ficar de olho porque são projetos do mais alto nível e de prestígio incontestável e internacional.

Ambas são vizinhas em Rio Negro, além de biodinâmicas, o que significa em linhas gerais que a produção se baseia no conceito de Rudolf Steiner de que a terra é um ser vivo e há uma harmonia entre o homem e a natureza, portanto não se utilizam compostos químicos, pesticidas. Os ciclos da lua, das estações do ano e até da astrologia são respeitados para estabelecer as datas da produção, já que se tem uma visão global entre o micro e o macro do universo. Tudo é sustentável, orgânico, se busca ressaltar a verdadeira expressão daquele ambiente, ser o menos invasivo possível nos métodos de elaboração, e por aí vai –  o tema merece outro post. Um vinho biodinâmico vai muito além de ser “orgânico”, é uma verdadeira filosofia que guia e interfere diretamente na produção das uvas e na elaboração dos vinhos, que expressam o melhor que a terra pode nos oferecer, portanto são de baixíssimo rendimento e de produção bem limitada.

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Cuidados minunciosos de planta em planta na bodega Chacra, onde o equilibrio natural oferece vinhos riquíssimos.

E as semelhanças não terminam por aí: as duas bodegas têm plantações antigas, de meados do século XX que após abandonadas, foram avistadas nos anos 2000 pelo winemaker dinamarquês Hans Vinding Diers, que tive o prazer de conhecer. Ele viu o potencial daquela zona até então pouco conhecida e então as plantações de Pinot Noir foram compradas pelo italiano Piero Incisa della Rocheta (sim, é da família que produz o “Sassicaia” em La Maremma, na Toscana), que fundaria a bodega Chacra, cujo nome se associa aos melhores Pinot Noir da Argentina e do mundo. As de Malbec se tornariam propiedade da condessa Noemi Marone Cinzano, da bodega Noemia, excelência absoluta em Malbec e também em seu exclusivo Cabernet Sauvignon, que apenas sai quando consideram que a colheita está perfeita, expressão pura do ambiente e da Patagônia, um vinho que é feito por prazer, tanto que em 16 anos de vinícola, somente em três ele foi produzido – e apenas 500 garrafas (isso sim é exclusividade).

Pois bem, a primeira que visitamos foi a Chacra, e assim que entramos já me envolveu com sua aura bucólica e um agradável canto de passarinhos. O enólogo Sebastian Fedele nos contou sobre a biodinamia, sobre como a natureza é capaz de controlar a si mesma sem interferências do homem, especialmente naquela zona que o clima permite (como já falei aqui), já que há fortes ventos quentes, muito sol, pouca umidade e os vinhedos estão bem protegidos pelos álamos. Sebastian também nos contou sobre a diversidade de solos na bodega, como argila, areia, pedra e misto – todos contribuem para a riqueza dos vinhos, por exemplo, o argiloso oferece corpo e estrutura, enquanto o pedregoso dá mineralidade e acidez.

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Piscinas de concreto no interior da vinícola, austéra, simples, uma vez que não há necessidade de tanta tecnologia e mecanização.

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Com o enólogo Sebastian Fedele nos ovos de concreto, que mantém o frescor dos vinhos após sua evolução.

O estilo de vinhos da bodega é a expressão da fruta fresca aliada a uma acidez marcante que o deixa fácil de beber, que convida para outra taça, outra garrafa mais, sem necessidade de acompanhar uma grande refeição. Eu que tenho o Pinot Noir como casta preferida estava bastante estusiasmada para a degustação.

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Provamos as safras de 2015 e 2013 do “Barda”, que é o vinho de entrada da vinícola, com frutas frescas bem expressivas, elegante, vivaz, uma delícia. Continuamos com o “Chacra 55″ 2015 que para Sebastián é o vinho que melhor define a bodega. Tem evolução de 8 a 10 meses em barris usados, madeira esta que é discreta, não sobrepõe em nada a expressividade do vinho, tem um perfume bem marcado, camadas aromáticas que se abriam em notas de especiarias, um toque apimentado, as frutas bem frescas, em boca taninos macios, toque aveludado. Eu o tomaria todo dia e não me cansaria, sem exageros! O contraste se deu com o “Chacra 32″ 2013 e 2012, o top de linha, das plantações de 1932, que é mais no estilo Borgougne, com 12 meses de madeira, frutas tipo geleia, mais concentrado, taninos presentes, super elegante e estruturado, enfim, um vinho que não pode decepcionar devido ao que se propõe (e o preço), que difere muito do 55.

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Ainda fui surpreendida pelo excelente “Amor Seco”, Merlot, jovem, no estilo Beaujolais, que já sai pronto para tomar sem muitos rodeios, e pelo “Mainqué” Rosé de Pinot Noir, que todos adoraram por ter um estilo a la Provence, delicado, sutil, uma preciosidade difícil de se encontrar no âmbito dos rosés produzidos na Argentina.

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Etiquetas do Chacra 55, meu preferido!

O clima de tranquilidade continuou ao chegarmos na Noemía, um vinhedo com muita paz, verde, e o mesmo cantar de passarinhos. Um carismático e alegre Hans Vinding Dier nos recebeu com o enólogo Guido Malacaza e desde o início ressaltou a harmonia daquele vinhedo, a fauna e a flora que comunicam algo, é uma natureza que se faz notar, e o vinho comunica sensorialmente esta vida, afinal, a uva chega perfeita à bodega – e concluiu, olhando para Guido:”se o vinho sai ruim, a culpa é do enólogo”, e ri, bem humorado.

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Guido Malacaza e Hans Diers

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As plantações de 1932

A ideia da Noemía é efetivamente produzir um vinho da Patagônia, uma representação, tanto que na etiqueta do Bodega Noemia se encontra um mapa desenhado por Leonardo Da Vinci, que mostra como ele imaginava a Patagônia, sem conhecê-la. Uma espécie de visão. O  vinho é equilibrado e tem os aromas daquela terra (que literalmente cheiramos, tocamos, sentimos), porque é resultado de um ambiente igualmente equilibrado em água, terra, sol, vento, e isso se transmite à planta. O trabalho dessa forma natural é o grande segredo (além do vento, que nas palavras de Hans funciona como “um helicóptero gigante que seca tudo”), a grande verdade e o que dá autencidade: não é barato, mas é genuíno, puro, por isso não precisam de marketing.

De fato, degustar o “J. Alberto” pisando naquele solo, tocando nas folhas, vendo aqueles racimos nascerem cheios de vigor, estar num raio de quilômetros sem poluição, eletricidade, interferências urbanas, foi uma das experiências mais marcantes para meu recente caminho de sommelier. Afinal, é por isso que falamos que o vinho é um produto vivo. Ele é vivo pois guarda em si a natureza em sua forma mais pura, prístina, ele marca a autencidade de um pequenito lugar deste vasto mundo.

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Bodega Noemia, J. Alberto, A Lisa – todos Malbec

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Degustando o Noemia 2

Após degustarmos o “A Lisa“, “J. Alberto” e “Bodega Noemía“, ainda tivemos o privilégio de tomar o “Noemía 2″ (se pronuncia “Due”), aquele que falei lá no começo que era super limitado e só sai quando sentem que é apropriado para a Cabernet Sauvignon. Este momento foi muito especial, e a discussão sobre a ideia de “terroir”, termo que uma pessoa do grupo utilizou para descrever o vinho, foi posta em dúvida por Hans, que comentou que é, claro, vinho de terroir, mas isso não precisa ser dito, e essa é justamente a vitória da Bodega Noemía, com vinhos que comunicam a pureza daquele ambiente. A finca tem sua própria identidade – independente da uva, que nem se comunica nos rótulos, pode ser Malbec, ou pode ser o Pinot Noir da vizinha Chacra – “terroir” soa demasiado francês, é uma palavra importante para a educação, para aprender sobre aqueles vinhos excepcionais, mas aqui não é necessário tantos rebuscamentos, é um vinho da Patagônia com sua juventude fresca, presente… o vinho é esse lugar.

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Terra e planta de Malbec, cheias de vida!

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Alegria inexprimível de degustar e desfrutar do vinho em seu ambiente.

Sem mais delongas, reafirmo ao leitor para não hesitar caso tenha a oportunidade de degustar quaisquer destes vinhos da Chacra e Noemía, que sem dúvida me marcaram por sua experiência sensorial um tanto intensa e prazeirosa, mas também por toda a história que têm por detrás.

A imensidão do Fin del Mundo e a sedutora Malma

Também em São Patricio del Chañar, na provincia de Neuquén, visitamos a gigante patagônica Fin del Mundo e a bodega Malma, antiga “NQN”, que hoje pertence ao mesmo grupo familiar.

Sobre a primeira, que está entre as maiores da Argentina, os números impressionam tanto quanto as dimensões: são mais de 850 hectares, 8 milhões de litros por colheita, 2000 barricas, 290 tanques inox, mais de 100 piscinas de cimento… É uma verdadeira planta industrial:

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Horizonte sem fim de tanques

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Piscinas de cimento

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Os vinhos prontos para distribuição

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A vista

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As etiquetas Ventus, La Poderosa e Fin.

A segunda parte da visita foi na Bodega Malma, sua vizinha de dimensões bem menores, já que os estilos de vinhos e objetivos de cada uma são diferentes. A Fin del Mundo de um modo geral se direciona para um consumidor mais tradicional, que quer encontrar aromas clássicos de fruta madura e madeira, para isso utiliza os polêmicos chips e duelas que adicionam estas notas aromáticas ao vinho, deixando a barrica apenas para linhas de alta gama.

Na Malma, que significa “orgulho” em mapuche (povo originário daquela área), é outra história, há uma orientação ao perfil de vinho mais atual de fruta fresca e acidez marcada, com madeira discreta e menos invasiva, que resulta em um produto delicado, sedutor e elegante. Sérgio Pomar, enólogo da bodega, que conta com assessoria de Roberto de la Motta, nos contou que divide em três finalidades o uso da madeira:

1- Técnico: para fermentar, antioxidar, copigmentar; não adiciona aromas ao vinho.

2- Organoléptico: para levar aromas ao vinho, sabor, complexidade (os chips e duelas só funcionam para este aspecto, por isso muitas vezes é rejeitado por bodegas e consumidores, uma vez que não ocorrem os benefícios do processo de evolução).

3- Evoluir: quando falamos, por exemplo, que um vinho ficou 12 meses em madeira. As uvas direcionadas para alta gama vêm de plantas com baixo rendimento (cada planta rende uma garrafa, enquanto plantas direcionadas para baixa gama rendem três ou quatro), portanto chegam à bodega com a pele concentrada em tânicos e antioxidantes que precisam ser suavizados e estabilizados (a grosso modo, as moléculas do vinho se unem em um processo chamado polimerização graças a mínima exposição ao oxigênio que o barril permite), deste modo os tânicos se amaciam, o vinho se torna redondo, mais amável, sedoso. Caso contrário seria rústico, desequilibrado, demasiado adstringente.

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O enólogo Sergio Pomar

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Adorei este Malbec: textura sedosa, volumoso, acidez marcada.

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Culminamos a visita com um almoço delicioso

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Um luxo a varanda da bodega Malma, com vista incrível, bucólica, não poderia ser melhor!

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Caminhada para observar as plantas, sentir a terra, o sol, e efetivamente compreender  o vinho

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Assim terminamos mais uma tarde conhecendo as bodegas, a geografia e a idiossincrasia do norte da Patagônia. O vinho é um produto vivo e deixa sua marca em experiências que vão além do sensorial – a prazerosa tarde na bodega Malma junto aos enólogos me marcou neste aspecto dos encontros, do coletivo, de estar atenta não só ao ambiente que deu origem ao vinho, mas também ao seu destino final. Como estudante de sommellerie, me forçou a dar uma pausa nas fotos, gravações e anotações para poder contemplar este novo espaço que se abria na minha vida: a experiência de sentar e curtir a vista das plantações sem pressa, degustar os vinhos e espumantes da Patagônia junto aos enólogos de uma das bodegas mais importantes do país e simplesmente desfrutar aquele momento que o vinho me proporcionou (e pensar em tantos que ainda estão por vir)…

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Bodega Malma

Muitíssimo obrigada a Sergio Pomar e às bodegas Fin del Mundo e Malma por nos receberem com tanta atenção e disposição. Ambas estão abertas para visitantes e têm variedade de propostas turísticas, que incluem podar as uvas, participar das colheitas e, claro, degustar os vinhos!