Tomando Sumoll do Pènedes no Bar Salvatge em Barcelona

Em Barcelona tive um breve e profundo mergulho no mundo mágico e irresistível das uvas autóctones catalãs. Afinal, nem só de Cava e das conhecidas uvas que o compõem – Macabeo, Parellada e Xarel-lo – está composto o complexo mapa de vinhos da região. Pois bem, um dos vinhos que me voló la cabeza neste verão foi um monovarietal de Sumoll Negra da Vinyes Singulars, do produtor Ignaci Segui, que provei no Bar Salvatge. Inesquecível, foi amor puro e efêmero pois se acabou em minutos. Vamos por partes então.

Sobre a Sumoll: uva originária da Catalunha, foi ofuscada décadas atrás por outras variedades mais conhecidas pelo mercado internacional como Merlot e Cabernet Sauvignon e também para o plantio de variedades brancas para produzir Cava em Pénedes. Desde os anos 2000, os produtores voltaram a investir em sua uva local, muitas vezes usada para blends, sendo a MontRubí com seu projeto Gayntus a primeira a vinificar 100% Sumoll, e atualmente existem entre 100 e 200 hectáreas plantadas na região, onde muitos a chamam de Pinot Noir do Mediterrâneo – embora eu não goste muito dessas comparações.

Um dado curioso é que científicos australianos realizaram um cruze entre a Sumoll (que se adapta perfeitamente a climas secos) e a Cabernet Sauvignon, dando origem a quatro castas que atualmente se produzem do outro lado do mundo: Tiro, Cienna, Vermilion y Rubienne. Há quem diga que este foi o empurrão final para que mais produtores catalães voltassem a valorizar sua uva autóctone – que aliás também se produz nas Ilhas Canárias, onde é conhecida como Vijariego Negra e foi introduzida via Andaluzia, onde há plantações em Jerez de la Frontera.

Degustando: Na taça, já chama atenção sua cor intensa, viva, avermelhada porém translúcida. Se mostra aberto e expressivo no olfato, com uma explosão de frutas vermelhas frescas e suculentas como romã e framboesa, toques de alecrim, tomilho e sotobosque mediterrâneo (que são as ervas locais), mostrando ainda mais camadas aromáticas de fumaça e grafite com o tempo. Em boca continua surpreendendo com sua acidez tão vibrante que persiste do início ao fim do paladar e textura tânica empoeirada e mineral. Pensemos em eletricidade, tensão e um final fresco terroso que lhe dá um tom de rusticidade. Puro suco da uva, sem sulfitos, elaborado é claro naturalmente. Pena que a produção é super limitada, 1000 garrafas apenas. Ignasi Seguí produz nas mesmas terras onde seus ancestrais faziam vinho desde 1400 e maioria de suas vides foram plantadas na décadas de 1960 e 70. Um nome que ficarei de olho para as próximas visitas na Catalunha.

Para tomar na taça direto da torneira.

E para finalizar, uma das melhores dicas de Barcelona, sem dúvidas, é o Bar Salvatge, como o nome diz, difusor da cultura de vinhos selvagens, onde se pode tomar taças de vinhos diretamente dos grifos e também provar dezenas de garrafas de exemplares únicos de vinhos naturais. A comida merece aplausos à parte: matéria prima de qualidade e super saborosa. Tem tanta coisa para provar que uma só visita foi pouco…

Referências:
Descubriendo la Sumoll del Penedès
10 cosas que debes saber sobre la Sumoll, la Pinot Noir del Mediterráneo
Robinson J., Harding J., Vouillamoz J. (2013). Wine Grapes. ePub edition.

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