Na estrada com vinhos de Portugal – Talasnal e Aldeias de Xisto

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog. Para ler a primeira parte sobre a aldeia de Odeceixe na Costa Vicentina, clique aqui, para a segunda parte sobre a Praia de Carvoeiro, aqui e sobre um dos melhores segredos do Algarve, aqui.

Parte 4 – O bosque encantado que emoldura Talasnal: lúdica e autêntica aldeia de xisto na Serra da Lousã

Ao planejar nossos destinos em Portugal optamos por deixar dois dias livres, totalmente em aberto, no começo e no fim. A ideia era aproveitar mesmo o encantador fato de estar sem rumo, sem hotel reservado, e passar a noite por cidades desconhecidas ou aldeias bem pequenas no meio do caminho. Se tivéssemos mais tempo, teríamos reservado a maior parte dos dias para nos entregarmos ao ocaso, porém, com o tempo mais ajustado, foi necessário um planejamento prévio para não perder muito tempo da viagem no Google Maps, entrando em sites de hospedagem e buscando informações no meio da estrada para decidir esses detalhes.

Na ida ao Algarve, paramos em Odeceixe, e na volta… bom, honestamente, não tínhamos a menor ideia do nosso destino surpresa. Havia, porém, um desejo e um lamento: ao eleger dias de praia, cortamos a estadia nas Aldeias de Xisto, antigo sonho desde que vi pela primeira vez no Pinterest, e que me remeteu a um cenário digno de elfos e duendes saídos dos melhores livros de Tolkien.

“Terreiro das Bruxas” e cervos no caminho da Lousã, como não amar?

Talvez a mais famosa seja Piódão na Serra da Estrela, porém há outras 27 que integram o Programa das Aldeias de Xisto espalhadas pela Serra da Lousã, Serra do Açor, Zêzera e Tejo-Ocreza, no centro de Portugal. Para dar uma chance e não dizer que não tentamos, decidimos então pegar a A-13 e depois a N-342 até a cidade de Lousã para ver se a subida para as aldeias nos levaria muito tempo (na verdade nos preocupava se era demasiado íngreme), senão tudo bem, voltaríamos para a zona de Coimbra e passaríamos a noite por ali para seguir para o Douro.

De acordo com o Google Maps a subida levaria apenas 20 minutos, porém as curvas sinuosas, a falta de prática na condução e o medo dos abismos causados por uma inata vertigem do motorista e da co-pilota que vos escreve eram fatores que nos fizeram duvidar bastante. Porém, caminhos sinuosos costumam ser recompensadores, e decidimos nos jogar. Honestamente, até hoje não consigo acreditar que duvidamos em subir. Foi a melhor decisão de toda a viagem, sem dúvidas.

Um adendo: se tem medo de altura como eu, respira fundo, reza ou medita. A subida é breve mas haviam curvas bem fechadas e sem muretas de proteção que nos fizeram tardar um pouco mais que o tempo sugerido no app (pois, em outras palavras, entramos em pânico e dirigimos a 10km/h- risos). De todos os modos, você estará em uma estrada deslumbrante, entrando aos poucos no ritmo da serra, rodeada por um bosque mágico de infinitos pinheiros, ar puro e fresco, silêncio e contemplação.

Tive a sorte de ter uma belíssima recomendação de hospedagem em Talasnal, uma autêntica casa de xisto, espaçosa, limpa e bem equipada, a Montanhas de Amor, cujo anfitrião é o simpático Joaquim, que também atende na taberna que fica logo à entrada da aldeia, onde há um pequeno estacionamento (na verdade, é obrigatório, pois não podem entrar carros) e pegamos somente o necessário para relaxar até o dia seguinte: casacos, tênis, saca rolhas e livros.

Talasnal foi amor à primeira vista. Detalhe para as folhas de parra entrelaçando a casa.

Chegamos em torno das 17h e deu tempo de sobra para caminhar por todos os cantinhos da aldeia e ainda fazer uma trilha pela beira do riacho – eu queria ter visto cervos ou javalis, mas não tive “sorte” (entre aspas pois a benção de estar nesse lugar é realmente indescritível).

Paz, flores e pinheiros na caminhada com ruídos da água que pareciam sair de uma app de meditação
“O Curral”: sebo, café e bar

Acima, um retrato do casal Ti’Lena, parteira e conhecedora de ervas medicinais (amei), e Ti’Manuel, construtor de casas e estradas e músico de harmônica, os últimos residentes naturais de Talasnal, falecidos há alguns anos atrás. Atualmente a aldeia está sendo reocupada por uma nova geração que mora principalmente em Lousã e faz todos os dias um bate e volta para trabalhar ali.

Uma vista dos sonhos para ver o atardecer n’O Curral
Delicioso pastel de castanhas e amêndoas

Decidimos sentar n’O Retalhinho, outro pequeno café atendido um simpático senhor que nos serviu uma jarra de vinho da casa por 70 centavos de euro (se não me engano era a única bebida da carta, além de cerveja).

Vida real é assim, às vezes os melhores momentos são com vinhos sem etiqueta

Logo fomos para a taberna da Montanhas de Amor, onde Joaquim nos esperava com o jantar que havíamos reservado: tábua de queijos, charcuterie e alheiras (1 vegetariana, para mim). Havia entre algumas opções dos vinhos mais tradicionais de Portugal uma garrafa da Quinta de Foz de Arouce 2013. Classificado como vinho regional Beira Atlântico, trata-se do projeto de José Ramos da Fonseca na Serra da Lousã. Bingo! Vinho decidido. Portugal é assim mesmo, onde você estiver, vai ter sempre algum vinho daquela região, é só procurar! Que país de sorte.

Alheiras vegetarianas e o Quinta de Foz de Arouce 2013

Foz de Arouce é um blend clássico da região da Beira, composto pela emblemática Baga (80%) e Touriga Nacional (20%). Esse é um vinho com profundidade, ou seja, que é misterioso e tímido, não se abre de uma vez. Percebe-se primeiro notas que lembram frutos do bosque como mirtilo e cassis maduros, logo surgem camadas aromáticas em tons de fumaça e especiarias, e lá no fundo um punhado de ervas secas e resina que me recordaram da caminhada que tinha feito no bosque há uma hora atrás. No paladar seus potentes taninos já estavam amaciados pelos 6 anos em garrafa, balanceados em seu corpo ajustado e compacto, com acidez média-alta, textura sedosa e final duradouro. Ideal para quem curte um estilo de vinhos mais estruturado, porém sem perder a elegância em nenhum momento, e ainda com potencial de evolução por mais alguns anos.

Lugar cenográfico: parecem uvas artificais, mas eu juro que esses parrais são de verdade e estão espalhados em todas as casas.

Além de sermos os únicos jantando na taberna (e também no Retalhinho), percebemos enquanto comíamos que o número de carros no estacionamento que já era pequeno, ia diminuindo cada vez mais e, como se fosse possível, a vila toda ia ficando mais e mais silenciosa. Era ao redor de 20h quando decidimos terminar nosso vinho na varanda de casa para que Joaquim e seu irmão pudessem fechar o restaurante e voltar à Lousã. Foi neste momento que reparei que não havia mais ninguém na aldeia (era um domingo), também não escutei vozes, nem passos, portanto tenho a impressão de que éramos apenas os dois naquela vastidão infinita de pedras e verde. De fato os turistas costumam apenas visitar e passar o dia, ao invés de pernoitar por ali.

Noite silenciosa em Talasnal

Ao amanhecer, passamos em Casal Novo, a alguns km dali, para dar uma voltinha – novamente, tudo fechado, éramos os únicos caminhando pela aldeia, que é ainda mais rústica que Talasnal, com vistas igualmente lindas, vale muito a pena o passeio. Não podemos visitar as outras três da região (Chiqueiro, Cerdeira e Candal), nem de ir ao famoso balanço com vista pois o motorista queria sair logo daquela zona de vertigem (risos).

Hortências maravilhosas em Casal Novo

E assim nos despedimos da Serra da Lousã. Foi uma passagem fugaz, às vezes sinto mesmo que foi um sonho pois esse lugar aparenta estar em outra dimensão do universo. Portugal é realmente uma caixinha de surpresas, onde cada lugar em que passo me remete a algo nostálgico, a uma espécie de reencontro e conexão profunda que tenho com essas terras. No próximo post conto um pouquinho sobre o destino seguinte, a terra do meu avô Portela, o Alto Douro Vinhateiro.

Na estrada com vinhos de Portugal – Segredos de Algarve

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog. Para ler a primeira parte sobre a aldeia de Odeceixe na Costa Vicentina, clique aqui e a segunda parte sobre a Praia de Carvoeiro, aqui.

Parte 3 – Dias em Algarve: as praias paradisíacas do sul de Portugal

Depois de acordar e tomar café da manhã contemplando a vista do quarto com as gaivotas voando na praia de Carvoeiro, subimos no carro e fomos pela estrada em direção a Portimão rumo ao Restaurante Caniço. “Mas já saíram para almoçar?”, se questionará a leitora atenta; pois bem, sou dessas que planeja o dia inteiro em função de onde comer/beber, e este se tratava de um dos segredos melhores guardados do Algarve (se é que isso é possível) e valia uma tarde inteira de passeio. Explico: se trata de um restaurante “escondido” dentro de um condomínio residencial na Prainha de Três irmãos, em Alvor.

A vista do mirante em Alvor

Fiz a reserva com algumas semanas de antecedência pelo site deles e também avisei que era meu aniversário. A escolha foi bastante acertada pois a tal da Prainha estava vazia e é possível caminhar por dentro de uma falésia que dava para outra extensão de areia com águas igualmente cristalinas, paisagens de cair o queixo e poucas pessoas em volta. Aliás, quando em Algarve, sempre caminhe pelas pedras buscando passagens secretas pois as chances de haver praias desertas a poucos passos são grandes.

Nada mal uma praia dessas para esperar a hora do almoço!

Curtimos o mar (embora ainda bem frio no final de junho) e o sol, e quando bateu a fome seguimos para nossa mesa, que eu já havia reservado há algumas semanas, onde me esperavam com um buquê de flores pois avisei que era meu aniversário. Um gesto simples, mas que faz o cliente se sentir especial – eu que trabalho em serviço me alegro quando vejo estabelecimentos atentos a esse tipo de delicadeza.

Para os aperitivos, começamos com sopa de peixe e ostras, que eu não consigo resistir (também queria percebes mas infelizmente não tinham naquele dia).

Ostras deliciosas

E indo ao que interessa, optei por um vinho do Alentejo, o Herdade dos Grous 2018, blend de Antão Vaz (a branca mais emblemática alentejana), Arinto e Gouveio, que era exatamente o que eu buscava: notas de frutas tropicais como mamão e abacaxi, voluminoso, algo untuoso, e elegante em seu final fresco e persistente. Perfeito para a pesca que viria a seguir.

Branco do Alentejo: Herdade do Grous 2018

O garçom levou à mesa esta bandeja com os produtos frescos do dia e comentou um pouco sobre cada um – foi bem interessante conhecer mais sobre a variedade de pesca local, e afinal optamos pelo cantaril, que tem escama avermelhada e nada bem colado às pedras e encostas, se alimentando de pequenos mariscos.

O único problema é ter que escolher um só!
Cantaril com legumes ao vapor

E o Caniço também tem seu próprio vinho, outro branco alentejano que oferecem em taça. Foi perfeito para finalizar o almoço com seu perfil mais estruturado, frutas de caroço maduras e mantecoso.

O vinho do Caniço, outro branco do Alentejo

Para finalizar, entre uma vasta opção de sobremesas, optamos pela clássica queijo de cabra e doce, bem leve, para continuar desfrutando das praias que haviam no caminho de volta até Carvoeiro.

Há um mirante ali pertinho com essa vista impactante das falésias do Algarve

Depois dessa vista panorâmica, paramos em algumas praias que íamos decidindo na estrada mesmo, pelas placas no caminho e pelo Google Maps. Recomendo a Praia do Carvalho e Praia da Marinha, que estavam praticamente desertas e, como tudo no Algarve, lindas de morrer.

No dia seguinte fizemos o passeio de kayak que sai de Lagos e passa por meio das falésias e cavernas, foi um modo diferente de apreciar ainda mais toda a exuberância da região. Antes aproveitamos para conhecer as famosas (e portanto mais cheias) Praia do Camilo e Praia de Dona Ana. Uma dica: faça o passeio de kayak na primeira hora da manhã, pois fiz de tarde e já havia mais movimento de barcos gerando mais ondas (exigindo mais esforço físico) e também acho que as águas já não estavam tãaao cristalinas.

Vista da praia do Camilo onde se pode observar o percurso do passeio de kayak

E enfim, embora muito díficil, após 4 dias nos despediríamos desse lugar mágico, diferente de qualquer outro destino de praia que já fui na vida, e seguiríamos em direção ao Norte de Portugal, com uma parada no meio do caminho que foi muito especial – em breve post!

Praia de Dona Ana e os kayaks ao fundo

Como é difícil ir embora do Algarve!

Na estrada com vinhos de Portugal – Carvoeiro

Fiz uma viagem de carro por dez dias recorrendo várias zonas de Portugal. E para cada uma, há pelo menos um vinho que ilustra minha experiência naquela região; vou relatar um pouco mais nessa série de posts que marcam a retomada do blog. Para ler a primeira parte sobre a aldeia de Odeceixe na Costa Vicentina, clique aqui.

Parte 2 – Dias em Algarve: chegando em Carvoeiro

Conseguimos reservar 4 dias das férias para descansar no sul de Portugal, em Algarve, para curtir um pouco o verão europeu. Optei pela hospedagem em Carvoeiro ao invés de Lagos pois me falaram que entre as praias mais urbanizadas, a primeira era mais vazia, limpa e bonita. Quando consegui um AirBnb com essa vista, em frente à orla, nem pensei duas vezes.

Nossa escolha foi acertada pois não buscávamos nenhum tipo de badalação, apenas descanso. A praia é frequentada majoritariamente por famílias inglesas e não encontrei muitas opções gastronômicas locais mais elaboradas, apenas culinária internacional (hindu, italiana, pubs), o que não me incomodou em nada pois o foco desses dias era mesmo relaxar, curtir o mar e as paisagens das falésias que pareciam coisa de outro planeta.

Dito isso, ao atardecer compramos algo para beliscar, o que em Portugal significava uma boa lata de sardinhas, algum queijo e, claro, vinho regional. A região demarcada do Algarve possui 4 Denominações de Origem, sendo elas a D.O. Lagos, D.O. Lagoa, D.O Távira e D.O. Portimão. Se utilizam principalmente as castas brancas Síria (Roupeiro), Arinto e Malvasía, e as tintas Negra Mole, Trincadeira e Castelão, entre outras.

Imprevisto 2018, vinho regional do Algarve

Confesso que não tinha pesquisado muitas referências sobre os produtores locais, portanto me utilizei do único recurso que me restava no mercadinho da praia: escolher a garrafa pelo rótulo. Afinal, é para isso que memorizamos leis, regiões, montanhas, rios e castas na carreira de sommelier, não é mesmo? Brincadeiras à parte, somada às pouquíssimas opções que encontrei, escolhi enfim o Imprevisto 2018, cujo nome, design e preço (6 euros) me simpatizaram bastante. Este branco da vinícola Convento do Paraíso, um corte de Viognier, Arinto e Alvarinho, se mostrou aromático, com notas de pêssegos e flores delicadas, porém curto em boca. É um vinho descomplicado e jovem, ideal para refrescar e tomar de dia na praia, não pede acompanhamentos além de uns petiscos, apenas serví-lo bem geladinho após um mergulho no mar.

Carvoeiro à noite

Enfim escureceu e fomos dar uma voltinha na cidade e dormir cedo. O dia seguinte virá em formato de post, com a melhor dica gastronômica do Algarve!