Chacra e Noemía, da Patagônia: “o vinho é esse lugar”

Desde Buenos Aires havia um burburinho que anunciava que o último dia de viagem terminaria com chave de ouro, com visitas às bodegas Chacra e Noemía. Se não reconheceu esses dois nomes, recomendo ficar de olho porque são projetos do mais alto nível e de prestígio incontestável e internacional.

Ambas são vizinhas em Rio Negro, além de biodinâmicas, o que significa em linhas gerais que a produção se baseia no conceito de Rudolf Steiner de que a terra é um ser vivo e há uma harmonia entre o homem e a natureza, portanto não se utilizam compostos químicos, pesticidas. Os ciclos da lua, das estações do ano e até da astrologia são respeitados para estabelecer as datas da produção, já que se tem uma visão global entre o micro e o macro do universo. Tudo é sustentável, orgânico, se busca ressaltar a verdadeira expressão daquele ambiente, ser o menos invasivo possível nos métodos de elaboração, e por aí vai –  o tema merece outro post. Um vinho biodinâmico vai muito além de ser “orgânico”, é uma verdadeira filosofia que guia e interfere diretamente na produção das uvas e na elaboração dos vinhos, que expressam o melhor que a terra pode nos oferecer, portanto são de baixíssimo rendimento e de produção bem limitada.

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Cuidados minunciosos de planta em planta na bodega Chacra, onde o equilibrio natural oferece vinhos riquíssimos.

E as semelhanças não terminam por aí: as duas bodegas têm plantações antigas, de meados do século XX que após abandonadas, foram avistadas nos anos 2000 pelo winemaker dinamarquês Hans Vinding Diers, que tive o prazer de conhecer. Ele viu o potencial daquela zona até então pouco conhecida e então as plantações de Pinot Noir foram compradas pelo italiano Piero Incisa della Rocheta (sim, é da família que produz o “Sassicaia” em La Maremma, na Toscana), que fundaria a bodega Chacra, cujo nome se associa aos melhores Pinot Noir da Argentina e do mundo. As de Malbec se tornariam propiedade da condessa Noemi Marone Cinzano, da bodega Noemia, excelência absoluta em Malbec e também em seu exclusivo Cabernet Sauvignon, que apenas sai quando consideram que a colheita está perfeita, expressão pura do ambiente e da Patagônia, um vinho que é feito por prazer, tanto que em 16 anos de vinícola, somente em três ele foi produzido – e apenas 500 garrafas (isso sim é exclusividade).

Pois bem, a primeira que visitamos foi a Chacra, e assim que entramos já me envolveu com sua aura bucólica e um agradável canto de passarinhos. O enólogo Sebastian Fedele nos contou sobre a biodinamia, sobre como a natureza é capaz de controlar a si mesma sem interferências do homem, especialmente naquela zona que o clima permite (como já falei aqui), já que há fortes ventos quentes, muito sol, pouca umidade e os vinhedos estão bem protegidos pelos álamos. Sebastian também nos contou sobre a diversidade de solos na bodega, como argila, areia, pedra e misto – todos contribuem para a riqueza dos vinhos, por exemplo, o argiloso oferece corpo e estrutura, enquanto o pedregoso dá mineralidade e acidez.

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Piscinas de concreto no interior da vinícola, austéra, simples, uma vez que não há necessidade de tanta tecnologia e mecanização.
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Com o enólogo Sebastian Fedele nos ovos de concreto, que mantém o frescor dos vinhos após sua evolução.

O estilo de vinhos da bodega é a expressão da fruta fresca aliada a uma acidez marcante que o deixa fácil de beber, que convida para outra taça, outra garrafa mais, sem necessidade de acompanhar uma grande refeição. Eu que tenho o Pinot Noir como casta preferida estava bastante estusiasmada para a degustação.

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Provamos as safras de 2015 e 2013 do “Barda”, que é o vinho de entrada da vinícola, com frutas frescas bem expressivas, elegante, vivaz, uma delícia. Continuamos com o “Chacra 55″ 2015 que para Sebastián é o vinho que melhor define a bodega. Tem evolução de 8 a 10 meses em barris usados, madeira esta que é discreta, não sobrepõe em nada a expressividade do vinho, tem um perfume bem marcado, camadas aromáticas que se abriam em notas de especiarias, um toque apimentado, as frutas bem frescas, em boca taninos macios, toque aveludado. Eu o tomaria todo dia e não me cansaria, sem exageros! O contraste se deu com o “Chacra 32″ 2013 e 2012, o top de linha, das plantações de 1932, que é mais no estilo Borgougne, com 12 meses de madeira, frutas tipo geleia, mais concentrado, taninos presentes, super elegante e estruturado, enfim, um vinho que não pode decepcionar devido ao que se propõe (e o preço), que difere muito do 55.

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Ainda fui surpreendida pelo excelente “Amor Seco”, Merlot, jovem, no estilo Beaujolais, que já sai pronto para tomar sem muitos rodeios, e pelo “Mainqué” Rosé de Pinot Noir, que todos adoraram por ter um estilo a la Provence, delicado, sutil, uma preciosidade difícil de se encontrar no âmbito dos rosés produzidos na Argentina.

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Etiquetas do Chacra 55, meu preferido!

O clima de tranquilidade continuou ao chegarmos na Noemía, um vinhedo com muita paz, verde, e o mesmo cantar de passarinhos. Um carismático e alegre Hans Vinding Dier nos recebeu com o enólogo Guido Malacaza e desde o início ressaltou a harmonia daquele vinhedo, a fauna e a flora que comunicam algo, é uma natureza que se faz notar, e o vinho comunica sensorialmente esta vida, afinal, a uva chega perfeita à bodega – e concluiu, olhando para Guido:”se o vinho sai ruim, a culpa é do enólogo”, e ri, bem humorado.

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Guido Malacaza e Hans Diers
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As plantações de 1932

A ideia da Noemía é efetivamente produzir um vinho da Patagônia, uma representação, tanto que na etiqueta do Bodega Noemia se encontra um mapa desenhado por Leonardo Da Vinci, que mostra como ele imaginava a Patagônia, sem conhecê-la. Uma espécie de visão. O  vinho é equilibrado e tem os aromas daquela terra (que literalmente cheiramos, tocamos, sentimos), porque é resultado de um ambiente igualmente equilibrado em água, terra, sol, vento, e isso se transmite à planta. O trabalho dessa forma natural é o grande segredo (além do vento, que nas palavras de Hans funciona como “um helicóptero gigante que seca tudo”), a grande verdade e o que dá autencidade: não é barato, mas é genuíno, puro, por isso não precisam de marketing.

De fato, degustar o “J. Alberto” pisando naquele solo, tocando nas folhas, vendo aqueles racimos nascerem cheios de vigor, estar num raio de quilômetros sem poluição, eletricidade, interferências urbanas, foi uma das experiências mais marcantes para meu recente caminho de sommelier. Afinal, é por isso que falamos que o vinho é um produto vivo. Ele é vivo pois guarda em si a natureza em sua forma mais pura, prístina, ele marca a autencidade de um pequenito lugar deste vasto mundo.

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Bodega Noemia, J. Alberto, A Lisa – todos Malbec
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Degustando o Noemia 2

Após degustarmos o “A Lisa“, “J. Alberto” e “Bodega Noemía“, ainda tivemos o privilégio de tomar o “Noemía 2″ (se pronuncia “Due”), aquele que falei lá no começo que era super limitado e só sai quando sentem que é apropriado para a Cabernet Sauvignon. Este momento foi muito especial, e a discussão sobre a ideia de “terroir”, termo que uma pessoa do grupo utilizou para descrever o vinho, foi posta em dúvida por Hans, que comentou que é, claro, vinho de terroir, mas isso não precisa ser dito, e essa é justamente a vitória da Bodega Noemía, com vinhos que comunicam a pureza daquele ambiente. A finca tem sua própria identidade – independente da uva, que nem se comunica nos rótulos, pode ser Malbec, ou pode ser o Pinot Noir da vizinha Chacra – “terroir” soa demasiado francês, é uma palavra importante para a educação, para aprender sobre aqueles vinhos excepcionais, mas aqui não é necessário tantos rebuscamentos, é um vinho da Patagônia com sua juventude fresca, presente… o vinho é esse lugar.

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Terra e planta de Malbec, cheias de vida!
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Alegria inexprimível de degustar e desfrutar do vinho em seu ambiente.

Sem mais delongas, reafirmo ao leitor para não hesitar caso tenha a oportunidade de degustar quaisquer destes vinhos da Chacra e Noemía, que sem dúvida me marcaram por sua experiência sensorial um tanto intensa e prazeirosa, mas também por toda a história que têm por detrás.