Bebendo as estrelas

Diz a lenda que Dom Pérignon ao produzir sua primeira champagne exclamou para os outros monges: Venham rápido, eu estou provando as estrelas!


Estátua em Reims do monge orgulhoso de sua invenção – e quem não estaria?!

Pois bem, em uma degustação da Bodega Dante Robino, após provar 3 espumantes tão diferentes entre si, decidi escrever sobre o tema.

Primeiro, um pouquinho da parte técnica… Os espumantes passam por duas fermentações: a grosso modo, a primeira é feita para transformar a uva em vinho e a segunda é para criar a espuma, e pode ser feita em cada garrafa individualmente (método Champenoise) ou em grandes tanques (método Charmat, mais industrial e indicado para grandes volumes).

O primeiro método, portanto, é mais artesanal: se agrega o açúcar e as levaduras de garrafa em garrafa, e uma vez mortas por já não consumirem mais o açúcar do vinho, estas vão se nutrindo das próprias reservas energéticas, em um processo conhecido como autólisis, que é muito importante pois gera aquelas notas aromáticas secundárias clássicas de um espumante, como torrada e brioche. No final desta segunda fermentação, se adiciona o licor de expedição, que definirá o grau de dulçura, a acidez e por conseguinte, o estilo do espumante (Brut, Extra Brut,Nature, etc).

O método Champenoise, ao fazer a mágica das borbulhas em cada garrafa, exalta a complexidade e elegancia do espumante – não é à toa que veio da região francesa de Champagne!

Vamos aos vinhos:

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Gran Dante – Pinot Noir e Chardonnay – Brut Nature – 2013

O Gran Dante Brut Nature é um espumante com personalidade. En nariz tem 3 camadas aromáticas: a primeira que é própria da uva, com notas cítricas; a segunda familia de aromas é proveniente das fermentações, com notas de brioche amanteigado; e a terceira é o famoso bouquet, derivado do tempo em guarda e do método champenoise (neste caso não há passo por madeira), que traz a complexidade desse aroma frutado com um fundo de amêndoas e brioche. Em boca é seco, persistente, pesado, untuoso. Um espumante elegante e complexo, cujas borbulhas não se vêem a olho nu, mas se sentem em boca com uma textura de mousse e cremosidade.

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À esquerda é o Novecento Extra Brut, à direita, o Gran Dante e a ausência em vista das borbulhas…

Novecento Extra Brut. Uvas Chenin Blanc e Chardonnay, que agrega mais complexidade e aroma. Em nariz: frutas tropicais frescas, como maçã verde, notas cítricas e fundo aromático de pão um pouco torrado. É um espumante fresco, fácil de tomar e aperitivo, bom para um couvert ou canapés. Bem básico, sem muitos comentários relevantes para agregar.

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Eis o outro espumante que me surpreendeu: o Capriccio, de uva torrontés riojano (que por sinal é a única 100% argentina). Em nariz tem notas florais de jasmín e frutas cítricas. Apesar de ser um espumante doce, tem ótima acidez, que nos seus 8% de teor álcoolico o fazem o vinho perfeito para combinar com uma sobremesa e, por que não, aproveitar seu custo-benefício para  tomar algumas taças entre amigos antes de sair para dançar  – ou cometer a típica heresia argentina de misturar espumante com energético e gelo (eu não recomendo!).

Por ser o último dos sete vinhos que degustamos,a foto não é de minha autoria 🙂

Para finalizar, apresento um clássico tango argentino intitulado La Última Copa, que começa assim: Encha, amigo, apenas encha até o borde a minha taça de champagne, porque nesta noite de farra e alegria, a dor que tem na minha alma eu quero afogar!