Degustando com o domador do leão de duas cabeças, o homem-bala e o magnífico equilibrista

Semana passada fui à degustação de El Equilibrista, projeto do enólogo Juan Ubaldini no excelente Almacén Otamendi, bairro de Caballito. A cata foi realizada pelos sócios da Fulano Wines, Vicky Belenisky e Leo Dal Maso, representantes da linha aqui em Buenos Aires. A família El Equilibrista possui três vinhos de produção estável – El Joven, El Sensacional, El Gran – e outras tantas etiquetas limitadas que são elaboradas a partir de cortes super especiais.

Por se tratar de vinhos de autor, são produtos focados na personalidade dos vinhos, de modo que cada etiqueta é única e respeita a singularidade de cada terreno que deu sua origem. Juan optou por não ter finca própia justamente em pról da liberdade de escolher as melhores cepas das melhores terras em Mendoza, em especial no Valle de Uco e em Vista Flores. Até os criativos nomes e design dos rótulos – todos relacionados ao circo e criados pelo estúdio Arena Bahamonde – são dignos de contemplação.

A conclusão? Degustar um Equilibrista será sempre uma experência complexa e irrepetível; recomendo comprar qualquer um da família se alguém tiver a oportunidade (e sorte) de encontrar no Brasil. Indo ao que interessa, eis os vinhos que degustamos:

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El Gigante, El Joven, La Intrépida Bala Humana, El Magnífico, El Domador del Monstruo de dos Cabezas.

1- “El joven“. 100% Malbec, 2015. Zero madeira, bem frutado. Segundo o Juan, é um vinho fácil, ideal para la previa, como chamamos aqui as famosas “prés”, ou seja, aquele momento de acender o fogo de um churrasco, ou de beliscar uns petiscos antes do jantar.  Este vinho é como o Joven circense que aparece no rótulo, aquele que faz de tudo, que se dá bem com todos e funciona para qualquer ocasião.

2- “La Intrépida Bala Humana”. Edição limitada. Elaborado 10% em cofermentação e 90% colheita normal. Aqui a analogia é traçada com o homem bala do circo, que sem receios do perigo é lançado do canhão e voa para longe, assim como seu arriscado corte de Merlot e Cabernet Franc, uma maravilhosa explosão de sabores.

3- “Domador del monstruo de dos cabezas“: Blend de Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, 60% e 40% respectivamente, tal como foi a produção de cepas nas fincas. Outra edição limitada.

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4- “El Magnífico”, 2013.
60% Malbec, 20% Syrah, 20% Merlot. Também de tiragem limitada, me distraí na degustação e não pude anotar mais informações, de todos os modos, super recomendo!

5- “El Gigante”, 2013. Mesma fórmula do anterior, 60% Malbec, 20% Syrah, 20% Merlot em uma garrafa de 1,5 litro. A ideia desta etiqueta, de apenas 100 garrafas, é a de um vinho que evoluísse com o tempo. As três cepas são as do Magnífico, mas a tiragem foi realizada de modo diferente.

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Como o rótulo nos indica, é de fato um vinho forte, ideal para uma refeição abundante.

Para finalizar o espetáculo, seguem os outros dois vinhos da linha permanente:

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Muito amor pela delicadeza dos rótulos!

Almacén Otamendi: Otamendi, 101. Caballito, Buenos Aires. Aberto de 2a a sábado, 10h-14h e 17h-21h30. Os donos, a Vicky da Fulano Wines e seu marido Gustavo são muito atenciosos, recomendo conhecer o local para comprar vinhos de bodegas exclusivas e participar das inúmeras degustações que realizam!

Adega Portela

Somos Flávia e Samara Portela, mãe e filha, brasileiras com nacionalidade portuguesa – ora pois. Nossa família é da região do Douro, de onde saem vinhos encorpados, de personalidade e é a única região onde se pode fabricar o famoso Vinho do Porto. Esse espaço é para falar de vinhos – suas lendas, seus paladares, sua história, sua degustação. Portanto, vamos começar contando um pouco dessa história, antes de entrar nos vinhos propriamente ditos.
No século 17, os britânicos começaram a importar grandes quantidades de vinho português. Para que a bebida resistisse às longas viagens marítimas, os comerciantes ingleses acrescentavam aguardente (vínica) nos barris. Os marinheiros logo perceberam que, além de conservar o vinho por mais tempo, a adição de álcool também realçava o sabor da bebida e aumentava o seu poder de embriaguez, tornando-a mais licorosa! Acabaram criando, sem querer, a fórmula do vinho do Porto.

 

O Douro, em Portugal, foi a primeira região demarcada do mundo, pelo primeiro-ministro de Portugal, o Marquês de Pombal, em 1756. Esta região vai ao longo do Rio Douro e seus afluentes, desde Barqueiros (Mesão Frio*) até Barca D’Alva, numa área de 250.000 ha.

* por coincidência ou não, Mesão Frio é a cidade de nossa família.

No século XIX, o escocês Barão de Forrester foi o primeiro a desenhar os mapas desta região do vinho do Porto, estudando a sua viticultura exaustivamente, inclusive com registro de fotografias. Diz a lenda que em 1861, conduzia o seu barco rabelo* pelo Cachão da Valeira e este virou! Forrester foi arrastado para o fundo do rio por causa do peso das moedas que levava consigo. O seu corpo nunca foi encontrado. Nessa derradeira viagem, estava com sua amante, a “Ferreirinha”, que segundo reza a história, não se afogou porque as saias de balão que então vestia, a fizeram flutuar até à margem do Rio Douro.

Rabelo

* O barco rabelo é uma embarcação portuguesa, típica do Rio Douro que tradicionalmente transportava as pipas de Vinho do Porto do Alto Douro